Zephyrus Tarot

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Brindando com Copas

Vamos lá. Janeiro pede para falar do Imperador e não quero chegar lá sem ter publicado este post.

Parte dessa promessa não-cumprida, até então, tem a ver com o tempo curto e outras prioridades, mas também porque encontro certa dificuldade para ser objetivo quando falo/escrevo sobre Copas. Dispersão, inclusive, que é algo a ser trabalhado neste naipe – quem conhece bem o 7 de Copas sabe disso. {imagem: Robin Wood Tarot}

Copas é um naipe rico em significados e talvez alguns estranhem esta afirmação, já que é padrão a fixação nas abordagens afetivas, correspondidas ou não, independente da natureza da pergunta.

O próprio Tarot Mitológico, que eu sempre recomendo como referência para quem deseja ler algo sobre Menores, dedica o Naipe de Copas para contar o amor de Eros e Psiquê – e isso não ajuda muito. Se pular do baralho o 2 de Copas, pimba! Podemos agradecer Pamela Colman Smith (Rider-Waite Tarot) por isso, com aquela singela imagem de um casal brindando.

Quem já me ouviu falando do Naipe de Copas, sabe que eu adoto “satisfação” como palavra-chave para simplificar as coisas na introdução ao tema. Se formos buscar em um dicionário, é provável que encontremos uma definição mais ou menos parecida com esta:

substantivo feminino
ato ou efeito de satisfazer(-se); contentamento, prazer advindo da realização do que se espera, do que se deseja

Eu escrevi que era para ser simples, mas não é.

Primeiro, porque a satisfação depende do seu grau de expectativa com relação ao seu objeto de desejo – e sabemos que “a expectativa é mãe de todas as frustrações”.

Segundo, porque somos seres permanentemente insatisfeitos – insatisfeitos quando não realizamos, insatisfeitos quando realizamos, mas não o suficiente, insatisfeitos quando realizamos e descobrimos que não era bem isso que desejávamos, insatisfeitos porque tudo muda e as primeiras emoções não se sustentam por muito tempo…

Talvez você se recorde de outro texto e pense: “pô, mas você já escreveu isso em Espadas!”. Ok, você está quase certo(a): nos dois casos consideramos a raíz do problema (de todos os problemas!), mas estou escrevendo sobre coisas distintas: em Espadas, me referia à confusão da mente e o quanto isso gera de sofrimento: você tenta todo o tempo mudar o mundo “lá fora” quando o que precisa ser trabalhado é a mente (percepção da realidade) como causa original.

Partindo do princípio que você tenha entendido isso, o desafio agora e um pouco mais difícil, pois, como em um game, passamos para um estágio onde outras habilidades são requisitadas. Ainda temos a necessidade de nos colocar acima das aflições geradas por expectativas e medos, mas agora lidamos com elementos insconscientes que precisam ser trazidos à tona antes que venham a ser purificados.

“Quer dizer que Copas nada tem a ver com afetivo?”

Calma lá. Afetivo é algo muito específico. Claro que Copas, em algum momento, será sinalizador de encontros, flertes e alianças, mas, antes disso tudo, Copas é um naipe de relacionamentos, e isto implica em muitas outras coisas:  como eu me relaciono comigo mesmo, com o outro (pessoas íntimas, próximas, distantes e mesmo desconhecidas), com o trabalho, com a espiritualidade, com ideias/conceitos/causas, com uma pedra… não importa. {imagem: Rider-Waite Tarot}

Astrologicamente, relacionamentos estão associados aos signos de ar: Gêmeos, Libra e Aquário. No Tarot, estes atributos pertecem à Copas, logo, Água.

É interessante, por exemplo, que diante de um 5 de Copas, se fale apenas de tristeza por algo que se perdeu. Muitas vezes a carta é um indicativo que a pessoa se fechou para o mundo (para uma pessoa/situação, em especial) ou reprime os próprios sentimentos, talvez para não se colocar vulnerável ou como reflexo (defensivo) de alguma dor já vivenciada. Quem sabe não tema dar sem ter nada em troca?

O fato é que as imagens sugerem o luto em muitos baralhos e ficamos nisso mesmo.

Eu já passei por consultas delicadas com muitas lâminas de Copas em jogo. Quando se trata de Espadas, às vezes é mais fácil o consulente concordar com você. Pode não concordar com a abordagem sobre como lidar com a questão, mas ele reconhece o problema, descreve a dor. Ela é real, tangível e o provoca todo o tempo. Copas muitas vezes é a água que mina secretamente os alicerces de uma construção. Você não sabe exatamente a raíz do sofrimento. Trata o sintoma errado.

A confirmação pode vir até por sonhos! A consulta mexe e revolve. À noite aflora algo claro ou simbólico que reforça o que foi conversado. A ação dos sonhos nestes casos pode ser, inclusive, reparadora.

Nós somos  a taça, símbolo da receptvidade, da cura e do útero que acolhe uma nova criação. Podemos considerar, num primeiro momento, se o que nos preenche nos satisfaz/realiza. Este nível de interpretação básico e o que geralmente esbarramos por aí. É o Tarot do “gosto” ou “não gosto”.

Outra abordagem é um alerta, preste muita atenção: só podemos doar aquilo que verdadeiramente temos a oferecer!  Como uma pessoa mal-resolvida pode dar conselhos para outras? Como alguém cheio de mágoa pode dar amor? Muitas vezes cuidamos da vida de outro(s)  para ignorar a necessidade de cuidar das nossas próprias vidas. Pulamos de um relacionamento ruim para outro sem desfazer os nós que nos prendem a um padrão de sofrimento.

O terceiro ponto – e talvez o mais difícil – é que o conteúdo de nossas taças deve ser tão puro quanto a água que brota da Fonte Primordial. Posso afirmar que este é o principal propósito de Copas: desvelar o Eu Autêntico. {imagem: Afro Brazilian Tarot}

Na Alquimia, um dos processos mais importantes é o Solutio, quando um  sólido (condicionamentos cristalizados) é dissolvido na água “para que matéria diferenciada retorne ao seu estado indiferenciado original – a prima materia”.  Em outras palavras, o Solutio leva à aniquilação das máscaras para revelar a essência de cada indivíduo. Bingo!

Importante ter em mente que nem toda racionalização é solução para um problema. Se o entendimento não atinge o coração, não vira padrão de comportamento. Você sabe que algo faz mal, mas não consegue se libertar do implulso para fazer de novo, e de novo, e de novo… Esta é mais uma forma de ver a diferença entre Copas e Espadas.

E o que isso tem a ver com relacionamentos?

Ocorre que somente uma pessoa autêntica, receptiva e não-defensiva tem condições verdadeiras de se envolver, de se mostrar e expressar tudo o que realmente considera importante com/para o mundo. Como comunicar para o outro aquilo que se esconde (ou não ousa admitir) para si mesmo?*

Envolver-se é arriscar-se por inteiro. Mas para que isso ocorra, é preciso autoconhecimento – algo que, na maioria das vezes,  se dá  através do outro, que revela o melhor e o pior de nós mesmos a cada mínima experiência que compartilhamos.* Como praticar a paciência, por exemplo, sem ter alguém que provoque nossa raiva?

De Ás a Nove, temos, então, etapas deste processo em que experimentamos diferentes sabores até o transbordamento do Dez de Copas, que é a capacidade de vivermos uma vida significativa.

Ter uma vida significativa é ter dinheiro? É encontrar a famigerada alma-gêmea? É constituir família? É trabalhar com o que gosta? Não, nenhuma destas coisas (ou todas elas combinadas) constrói uma vida significativa.

Uma vida se torna significativa quando deixamos de lado o velho modelo de pensar em uma coisa e fazer outra; quando estabelecemos um estado de comunhão com a alma; quando nos libertamos de toda ignorância, apego e aversão. Por isso Copas também é o naipe ligado à espiritualidade, mas acho melhor deixar isso para um outro post ou vou começar a me embolar de novo.

Se estas palavras iniciais aguçarem a sua curiosidade para sair do lugar-comum dos almanaques, já me dou por satisfeito. Talvez alguns pensem, “poxa, mas ele não deu interpretações condensadas de Ás a Dez, fora as Figuras da Corte”. Eu sei, mas o meu objetivo é provocar a reflexão – contra ou a favor – e não trocar uma receita de bolo por outra. O espaço de comentários está aberto para trocas, sempre.

Possam todos se beneficiar!

* Estes dois parágrafos reúnem, de forma editada, afirmações retiradas do livro Criando União, de Eva Pierrakos e Judith Saly.

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  • Sabrina

    Marcelo,
    Existe alguma previsão de abertura de turma para arcanos maiores em 2011?
    Obrigada!
    Sabrina Trézze

  • Monteiro Renata

    Marcelo,

    Precisei reler seu post várias vezes,tentando entender mais o espirito da coisa. No final das contas, fiquei com a impressão de que o naipe de copas é meio, sei lá, de difícil apreensão mesmo. Daí as pessoas tenderem a abordagens mais superficiais do tema. A tarefa de entendimento pessoalmente me soou meio frustrante, talvez por limitação minha. Meio como a água que escapole quando vc tenta apreender com as mãos, sabe? Talvez seja a própria natureza do naipe… Trata-se de um outro nível “entendimento” mesmo, totalmente diferente do que a gente concebe como racionalidade.
    Parabéns pelo texto. E não deixe de escrever outro que relacione copas e espiritualidade.
    bjs,
    Renata

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Oi, Renata. Depois eu olho de novo e, de repente, reescrevo alguma parte buscando ser mais claro. Você me ajuda fazendo perguntas. Como comentei, mil coisas pulam na minha cabeça quando penso em Copas e posso não ter amarrado bem as coisas.

    Copas muitas vezes reflete questões inconscientes, por isso não devemos ficar condicionados com a idéia de que “love is in the air”. Pode ser também a busca de algo que traga contentamento, como uma ocupação, uma filosofia de vida ou uma causa, para citar alguns exemplos.

    Sobre espiritualidade, estou pensando (por causa de um papo que rolou estes dias) em escrever sobre a espiritualidade que se expressa através dos 4 naipes, vamos ver.

    bjo

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Oi, Sabrina. Estou aguardando a definição de outros compromissos para ver como encaixo a possibilidade de uma nova turma no próximo semestre.

    abs

  • Soraiagonzaga

    Oi, Marcelo.

    Quando li este texto a vez primeira, me veio a lembrança uma frase de Carol Anthony onde ela fala sobre o Hexagrama 6 (O Conflito) algo mais ou menos assim:”a pessoa casada consigo mesma não procura fazer coisas que a façam perder o equilíbrio…”
    Me parece que a “lógica” do relacionar-se passa por aí, a plena consciência de quem somos, o que não é nada fácil.

    Bjs.
    Feliz 2011.

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Oi, Soraia, é por aí mesmo. Você busca a sua essência – a sua verdadeira natureza, tanto quanto possível – para que possa estabelecer relações mais coerentes com a vida e não caia nas armadilhas do ego (medo, raiva, frustrações etc).

    Eu gosto da visão macro do Mebes a respeito dos Menores, onde cada naipe tem um propósito dentro do processo evolutivo de cada indivíduo:

    “A vitória sobre a Terra confere ao mago o ponto de apoio necessário para qualquer ação.

    Enfrentando o Ar com audácia, empunha a espada para afastar as ilusões.

    Triunfar sobre a Água é conquistar a copa em que se bebe a Sabedoria.

    No Fogo o iniciado obterá o cetro do rei que reina identificado com o Supremo Querer”.

    bjo

  • http://twitter.com/jogos_jogos Jogos online

    muito bom.

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  • http://twitter.com/IgorLust Igor Freire

    Sempre achei escasso e limitante a interpretação do naipe de Copas como ‘Amor’, ‘Sentimentos’ e de Espadas como ‘Conflito’, ‘Dor’. Sei que a maioria dos tarólogos sérios tentam fugir desses rótulos tão pobres. Pra ser honesto me dou muito bem com o naipe de Espadas e já quando sai Copas é um caos só. Vejo simbolicamente o naipe de Copas, como troca, se relembramos veremos ‘copas’ na Temperança e na Estrela, o conteúdo da Copa é ofertado, movimentado, está ligado diretamente as trocas. Ao derramamento do líquido. Só podemos ofertar o que temos, não há como saciarmos a sede se não houver água. Se percebermos onde houver taças vazias haverão ‘sofrimento’, como nos arcanos 4, 5 e até mesmo no 8. As demais sempre há outros elementos revelando fluidez, como no dois, onde podemos ‘ver’ o laço formado pelos braços de quem casa na hora do brinde, no três e o compartilhamento com os demais. A Água é fonte de vida, é onde ela pulsa; dentro da taça vemos a vida, o sentido dela, daí seu elo com a satisfação, prazer, sentimentos e amor. Quando há um sentido sendo nutrido verdadeiramente a vida se torna berço da comunhão. A água é um elemento cíclico, daí sua necessidade de ser compartilhada tão intimamente. Ela precisa ser movida, diferente do Ar que se move por ‘vontade própria’. A água se move para fecundar a terra, para se misturar ao ar, e para silenciar o fogo. Quem já viu aqueles documentários de escassez de água na savana onde predador e presa ficam tão próximo pela necessidade de compartilhar o bem mais precioso; a água. Vejo a água como a mantenedora da vida interna, propiciando satisfação, com o intuito de manter o bem maior que é a vida.

  • http://twitter.com/IgorLust Igor Freire

    Queria deixar um abraço e dizer que seus posts como sempre são muito inquietantes e que eleavm muito a compreensão das cartas.

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Oi, Igor. Também fico bem à vontade com Espadas e Copas às vezes confunde, pois a água escorre por muitos caminhos e é importante saber qual a trilha ela esta seguindo em cada jogo. Água parada apodrece, vira berçário de parasitas. Daí a importância da Temperança e o seu processo contínuo de fluidez.

    abs

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Valeu, Igor. O importante é sempre fazer pensar. Em momento algum classifico o que eu escrevo como “o certo”, mas estou sempre em busca de outros olhares (sem fugir do que é técnico) para perceber as possibilidades que o arcano oferece.

    abs

  • http://twitter.com/IgorLust Igor Freire

    Marcelo, queria pedir desculpa se passei essa ideia do que foi compreendido, que haveria no texto uma noção de ‘certo’ e ‘errado’. Sei que, não é isso, acompanho o Blog já tem um tempo, mas é a primeira vez que posto, sei que esse modelo maniqueista, reincide sobre um aspecto moralista da compreensão da realidade. Coisa que não é visto aqui, em momento nenhum. Abração e pode estar certo que o blog é um verdadeiro canal do repensar sobre astrologia e a vivência dos arcanos par que se possa desfrutá-los com maior sabedoria. =)
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  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Oi, Igor. Devo ter me expressado mal. O que escrevi sobre ‘certo’ foi só um comentário solto sobre as minhas tentativas de explorar outros olhares. Não encarei nada do que você escreveu como crítica negativa, fica tranquilo.

    abs

  • Edylucca

    Ai, Marcelo, como é bom ler o que você escreve…e eu que já estava achando que tinha quase esgotado as possibilidades de estudar pela internet, imagine que bobona!
    obrigada!!!! Vou estar sempre por aqui
    um abraço