Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?
De vez em quando esbarro com um texto antigo meu, escrito como Uther Pendragon, Marcelo Draco ou, mais recentemente, Kirtan. {imagem: Harmanious Tarot}
Este é um deles e nem sei exatamente quando ou onde foi publicado originalmente, mas achei que valia a pena resgatar, apesar do tom meio ingênuo, porque qualquer hora aparece por aí como se escrito por outra pessoa.
Fiquei aqui pensando se era um bom momento para fazer isso, afinal, a semana não foi agradável para uma boa parcela dos cariocas e o título pode sugerir que eu tenha uma resposta.
Não, não tenho. E não acredito que alguém possa solucionar este enigma – ainda que afirme o contrário. Algumas coisas estão além da nossa compreensão e eu aceito isso como um mistério a ser revelado no momento adequado. Nada pior do que uma pessoa contar que está com câncer, por exemplo, e algum sabichão responder que isso é por causa das mágoas que ela guarda, blá-blá-blá.
Não sei se tudo é assim tão cartesiano e não trabalho apontando o dedo para os clientes. O Tarot, antes de qualquer outra coisa, é uma ferramenta de reflexão.
Eu li esta pergunta no outro dia na capa de um livro fiquei pensando como ela se encaixaria com alguns Arcanos Maiores do Tarot.
Quando nos propomos a interpretar os símbolos do Tarot para nós mesmos e, principalmente, para outros, cedo ou tarde nos deparamos com a situação de uma pessoa aparentemente íntegra passando por um momento muito difícil.
Fomos criados, a princípio, acreditando que carros explodem quando colidem e que pessoas más pagam pelos seus crimes mas, na realidade, as coisas nem sempre são assim. {imagem: Harmanious Tarot}
Não são raras as vezes em que conhecemos alguém que honra todos os seus compromissos e busca dar o melhor de si em tudo mas, ainda assim, sofre perdas violentas e/ou passa por privações.
Alguns afirmam que estas coisas acontecem porque não estamos encarnados para sermos simplesmente bons mas para sermos melhores – melhores a cada dia. O processo de crescimento deve ser constante. Devemos olhar diariamente para o espelho e perguntar o que podemos aprimorar.
“Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas?’, pergunto para cada uma das cartas e aguardo uma resposta.
No Tarot, como já sabemos, não existe bom ou ruim. Tudo vai depender do contexto. Para fazer um pequeno exercício, analiso rapidamente 4 cartas naturalmente polêmicas, mas poderia fazer o mesmo com qualquer uma das demais 74 lâminas, incluindo as que acreditamos só trazer notícias boas e que, nesta proposta, podem estar apontando justamente para as nossas falhas.
A carta do Pendurado, por exemplo, se refere de modo geral a questões que estão literalmente suspensas. Nada acontece e, teoricamente, não há o que fazer.
O Arcano 12 muitas vezes aparece quando somos negligentes com a vida. Ficamos tão voltados para o trabalho, vida social e outras atividades externas que deixamos de lado aqueles momentos de silêncio e solidão em que refletimos sobre exatamente onde estamos e para onde queremos ir. {imagem: Harmanious Tarot}
Por vezes sai para pessoas que vivem uma rotina robótica e esquecem que toda máquina necessita de manutenção. Foco na qualidade vida é muito importante neste momento.
A Morte, a carta seguinte, aponta para cortes e transformações. Em seu aspecto positivo, é o consulente que promove mudanças, mas dependendo da disposição no jogo, ele que é cortado. O Arcano 13 é a vibração seguinte a um processo de estagnação.
Aparece, por vezes, para pessoas que sentaram no seu sucesso – ou mesmo no seu fracasso – e dali não saíram. As cartas do Imperador e da Morte estão interligadas pela numerologia (13=1+3=4), ou seja, a realização de qualquer coisa não acaba na sua materialização. O universo está em constante estado de impermanência e devemos acompanhar este fluxo para não sofrermos desnecessariamente.
O Diabo é outra daquelas cartas dúbias: você domina ou é dominado, e não há maior escravidão do que a escravidão do ego. São pessoas que valorizam a matéria, o desejo, o status. {imagem: Harmanious Tarot}
A “cura” para estas pessoas é buscar apoio em esferas superiores. É preciso sensibilizar o ego com as orientações da alma. Sair da forma para o conteúdo. Abrir mão do temporário para abraçar o que é perene.
É preciso ampliar a percepção das coisas para além dos 5 sentidos, só assim o indivíduo compreenderá a valorizar o que é realmente importante.
A Torre é uma carta das pessoas aprisionadas em seus conceitos. Uma hora a pressão se torna grande demais e o castelo desmorona. Do lado positivo as paredes caem e seus horizontes se ampliam. Do lado negativo a pessoa se fragiliza ao ver suas crenças indo ao chão, sem contar que sempre pode sobrar um tijolo na cabeça.
O Talmude afirma que o homem sábio é aquele que aprende com todas as pessoas. Devemos nos manter abertos para tudo ou, como no conto zen, precisamos esvaziar a xícara para receber chá novo.
Estas abordagens são superficiais, é verdade – apenas uma introdução. Comentários mais profundos vão depender do caso específico em pauta, lembrando sempre que, para qualquer análise, a compaixão deve vir em primeiro lugar.
.








