Zephyrus Tarot

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O futuro a D’us pertence…

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imagem: Stephanie | Flickr

Zapeando a TV esta semana assisto um pastor esbravejando a respeito dos “falsos profetas”, citando várias passagens bíblicas que condenam o homem que deseja saber do seu futuro.

Lembrei de uma cliente que resolveu arriscar uma leitura e gostou da maneira como trabalho com as cartas. Curiosa a respeito do curso, também questionou “se era correto aos olhos de D’us” fazer previsões sobre o futuro.

Sem querer entrar em polêmicas religiosas, tudo o que posso escrever é sobre o que penso a respeito do assunto, e começo fazendo isso com um exemplo tosco:

É comum educarmos nossas crianças para que não falem com estranhos, pois “estranhos são perigosos”. Eu sou “um estranho” para inúmeras crianças, mas isso não faz de mim uma ameaça, claro. De qualquer modo, é mais seguro simplificar a regra a estabelecer parâmetros para alguém ainda incapaz de discernir o que pode ou não vir a ser perigoso.

Do ponto de vista histórico, faz-se necessário lembrar que as regras foram estabelecidas para o mesmo povo que depois de todas as demonstrações de poder que testemunhou no Egito, incluindo a travessia a seco pelo Mar Vermelho, e a outorga da Torá no Monte Sinai em meio a mais fenômenos impressionantes, no primeiro momento de dúvida usou de magia para evocar uma deidade pagã, o Bezerro de Ouro,  quando todos foram flagrados por Moshê (Moisés).

É dito que o trabalho foi obra da “massa confusa” que resolveu seguir com eles, mas isso não interessa – todo mundo colaborou com um adereço de ouro para a fundição da peça que ganhou vida, literalmente.

Enfim, a radicalidade de muitas orientações tem por objetivo criar uma larga margem de segurança e evitar o risco de conclusões equivocadas.

O texto a seguir é do Rabino Michael Laitman, fundador e presidente do grupo Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute. Alguém pergunta se a Cabalá pode ser utilizada para adivinhação ou previsão do futuro e ele responde, baseado nas instruções da Torá:

A Torá proíbe os adivinhos, magos e mágicos porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador. O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado, pois o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade. Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia. O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas.

Sim, a resposta do Rav Laitman continua dizendo que o recurso oracular é errado, mas gosto dela porque permite argumentações que considero importantes:

“(…) porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador”.

O maior risco da prática oracular é a dependência. É achar que para qualquer decisão o oráculo precisa apontar um caminho ou validar uma inclinação pessoal. Quanto mais a gente procura as soluções através de outra pessoa, mais invalida a sabedoria que reside dentro de nós mesmos e que se desenvolve na medida em que a exercitamos.

O oráculo é útil quando o desequilíbrio mental/emocional impede que a gente perceba as coisas com clareza e ele nos ajuda a identificar os pontos-chaves, sendo mais últil no processo de entendimento do que “estou plantando” do que na revelação do que “estou para colher”, pois uma coisa é consequência da outra.

“O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado (…)”

“Escapar daquilo que o Criador lhe dá” é algo que vai ao encontro da minha visão torta a respeito de livre-arbítrio: para mim – e guardadas as devidas proporções – somos como ratos de laboratório, onde um botão verde confere água e um botão vermelho dá choque. Nós temos o livre-arbítrio, sim, de apertar o botão vermelho mil vezes se assim desejarmos, mas o resultado será sempre o mesmo até que resolva tentar o verde. Não tem Segredo que altere esta lei.

“Ah, mas Paramahansa Yogananda rasgou o seu mapa”, ok, mas é preciso ter a estatura [espiritual] de um Yogananda para se fazer isso e estas coisas acontecem através da plena consciência de si e do Todo. Se ainda não é o seu caso (como ainda não é o meu), você está apenas se enganando, querendo mudar fora antes de mudar dentro.

O Tarot, neste sentido, muitas vezes aponta para o que verdadeiramente estimula algumas atitudes/padrões mentais ou faz com que as evitemos. Não foram poucas as vezes em que ouvi um “ah, então é isso…” e são estes momentos que fazem toda a diferença. Depois disso, naturalmente sabemos “qual botão apertar”. {imagem: Tarot of the Origins}

Devemos ser como surfistas experientes que aproveitam o melhor de cada onda, pois o hocus pocus geralmente é como uma “matrix dentro da matrix”: você acha que escapou, mas está apenas preso em outra dimensão do mesmo engano.

“Mas você escreve sobre óleos, florais e energia… isso não é hocus pocus também?”

Existe uma diferença entre se buscar o realinhamento energético e usar um talismã (ou formalizar pactos nebulosos). No primeiro caso, trabalhamos o surfista, que se torna mais consciente das suas habilidades (as que possui e as que precisa desenvolver para se manter na prancha). Também quanto maior for o seu conhecimento a respeito do seu momento (a qualidade da onda em que está), melhor – isto é correto.

No segundo, espera-se que a onda perfeita “surja” sem que se tenha construído mérito para isso ou que sejamos tão bons/hábeis para aproveitá-la de forma apropriada – grande interferência do ego, via de regra. Aqui perde-se muito tempo no engano, como já escrevi, e, com raras exceções, ainda criamos mais karma negativo.

“(…) o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade”.

Toda experiência traz consigo uma oportunidade de nos tornarmos melhores do que somos hoje. Um cliente esta semana perguntou meio constrangido “mas as pessoas também te procuram quando está tudo bem, não é?”

Claro que não – e nem sou eu que vou dizer que deveriam – mas saber como aproveitar os tempos de bem aventurança é tão importante quanto saber como lidar com os tempos de adversidade.

A palavra-chave é sempre consciência. O Tarot ajuda no desenvolvimento desta consciência através do autoconhecimento até que você seja capaz de fazer isso sozinho.

Clientes são bem vindos. Clientes ajudam a criar recursos. Mas desejo que todos os clientes alcancem a felicidade e se libertem do sofrimento – e então eles deixam de ser clientes… ;)

“Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia”.

É verdade. Somos homens, e não anjos. É dito que os anjos sabem exatamente a consequência de qualquer um dos seus atos – todo o desencadeamento para cada pensamento, palavra e ação. Se fôssemos como anjos estaríamos vivendo outra realidade. Viver com certa dose de incerteza é parte da nossa natureza.

Vale aqui, de novo, a questão da medida correta: não é para saber todo o tempo o que vem a seguir; não é para alimentar a ilusão de que somos capazes de controlar todos os acontecimentos. Encare o oráculo como um daqueles avisos de segurança, “em caso de emergência, quebre o vidro”, e tenha certeza de não estar quebrando o vidro desnecessariamente.

“O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas”.

A experiência com o oráculo deve ser sempre libertadora. Isso significa trabalhar sobre os medos, mágoas, expectativas e outros elementos de obscurecimento mental até o ponto em que as ferramentas permitem. E, mais do que isso, é um trabalho sobre o que eu necessito, e não sobre o que eu quero.

Se tarólogo e consulente assim procedem, não há, creio eu, como “estar errado aos olhos de D’us”.

Possam todos se beneficiar!

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  • http://www.taroterapia.com.br/ Giancarlo Kind Schmid

    Oi Marcelo,
    Amei o seu texto, muito mesmo. O que expôs, é exatamente a minha forma de pensar, sem tirar e nem por. Infelizmente, é também a forma de pensar muito criticada, e que certamente deverá nortear todos os oráculos futuramente. Abraços!
    P.S. se me permitir, divulgarei o link do referido nas comunidades e entre amigos.

  • http://alextarologo.blogspot.com/ Alex Tarólogo

    Parabéns pela qualidade do texto, Marcelo e, sobretudo pela forma clara, objetiva e corajosa de abordar a questão.
    Dante, em sua “Divina Comédia”, apresenta os “homens de cabeças viradas para trás”, como uma alusão ao castigo, inflingido por Deus a todos aqueles que “predizem o futuro”. A eternidade olhando para o passado (para trás) lhes está garantida, de acordo com o autor italiano.
    Infelizmente muito consulentes ainda buscam em instrumentos como o tarot uma forma de “ver o futuro”, esquecendo-se que o futuro é construido a todo o momento e que pode ser facilmente predito por uma simples questão de bom senso e de análise do comportamento pretérito e atual de qualquer pessoa.
    O mal não está na utilização de qualquer forma oracular, mas na possível forma como nos utilizamos das informações que ela nos oferece.
    Mais uma vez, parabéns por procurar esclarecer, com seu texto, a um número imenso de pessoas.

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Valeu, Gian. E claro que pode divulgar os artigos do Z à vontade. O espaço é para ser compartilhado mesmo.

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    O consulente deve ser sempre esclarecido do trabalho que você promove, pois naturalmente tem expectativas e é cercado por falsas promessas que permeiam o mercado.

    É sempre curioso quando alguém pergunta “mas existe algo que eu possa fazer?” esperando que eu apresente um caminho expresso para o “mundo dos desejos realizados”, mas estas coisas não existem e não basta dizer “não” – é preciso explicar o porque, ainda que a resposta nem sempre seja bem recebida.

    abs

  • Érico Veríssimo

    Olá marcelo! Parabéns por mais um artigo, coerente e elucidativo.
    Estava pensando em comprar 1 tarô mitologico, pelo fascínio de suas analogias, quando percebi que suas cores e imagens desagradavam-me fortemente. Conheci o “old english tarot” e sinto-me muito atraído pela leveza de suas gravuras.
    Gostaria imensamente de ler um comentário seu sobre este deck. Agradece desde já:
    Érico V

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Eu tenho e gosto muito do Old Elglish, que possui ilustrações inspiradas no Luttrell Psalter, do século 14. Já li e ouvi algumas pessoas reclamando das imagens das cartas numeradas, mas isso para mim não é problema, pois me ligo mais na beleza das gravuras do que se a cena retratada tem coerência com o significado da carta – até pelo fato destas composições serem reduzidas à metade inferior das lâminas. Se ainda não comprou, pode fazer sem medo.

    abs

  • lunasolis

    Caro Marcelo,

    Texto maravilhoso e sábias palavras!

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Valeu, obrigado. ;)

  • Pingback: O futuro a D’us pertence – Marcelo Bueno « Tarosfera

  • http://tarosfera.com Arierom

    Marcelo,
    seu belíssimo texto traz reflexões e ensinamentos bem adequados para o momento.
    Estou “linkando” um sumário dele no meu cantinho.

    Abraços.

  • http://tarosfera.com Arierom

    Marcelo,
    seu belíssimo texto traz reflexões e ensinamentos bem adequados para o momento.
    Estou “linkando” um sumário dele no meu cantinho.

    Abraços.

  • Felicia Sarra

    quando o homem precisa saber ele saberá, o instinto é uma maneira de avisá-lo e esta nele, e não fora vocequer saber do seu futuro, construa bem o presente,mas, existem ocasiões de que se é avisado do que possa acontecer caso se persista em determinadas atitudes, o comodismo de esperar que os outros mostrem o caminho que voce deve seguir é que deve ser evitado, pois, dai estaremos transferindo para eles as nossas decisões e dai não amadurecemos com nossas experiencias de vida, mas, uma ajudinha quando estamos emocionalmente abalados e sem poder de resolução é sempre bem vinda

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    O certo é trabalharmos continuamente pelo nosso equilíbrio e expansão da consciência. Se trabalhamos as causas, e não as consequências, é de se esperar que as coisas fluam com maior naturalidade, sem os fantasmas do medo e da expectativa. Por isso é sempre importante que os tarólogos não alimentem a dependência de seus clientes para que eles busquem mais e mais as respostas dentro de si.

    abs