O futuro a D’us pertence…
Posted by Marcelo BuenoMar 7
.
.
.
imagem: Stephanie | Flickr
Zapeando a TV esta semana assisto um pastor esbravejando a respeito dos “falsos profetas”, citando várias passagens bíblicas que condenam o homem que deseja saber do seu futuro.
Lembrei de uma cliente que resolveu arriscar uma leitura e gostou da maneira como trabalho com as cartas. Curiosa a respeito do curso, também questionou “se era correto aos olhos de D’us” fazer previsões sobre o futuro.
Sem querer entrar em polêmicas religiosas, tudo o que posso escrever é sobre o que penso a respeito do assunto, e começo fazendo isso com um exemplo tosco:
É comum educarmos nossas crianças para que não falem com estranhos, pois “estranhos são perigosos”. Eu sou “um estranho” para inúmeras crianças, mas isso não faz de mim uma ameaça, claro. De qualquer modo, é mais seguro simplificar a regra a estabelecer parâmetros para alguém ainda incapaz de discernir o que pode ou não vir a ser perigoso.
Do ponto de vista histórico, faz-se necessário lembrar que as regras foram estabelecidas para o mesmo povo que depois de todas as demonstrações de poder que testemunhou no Egito, incluindo a travessia a seco pelo Mar Vermelho, e a outorga da Torá no Monte Sinai em meio a mais fenômenos impressionantes, no primeiro momento de dúvida usou de magia para evocar uma deidade pagã, o Bezerro de Ouro, quando todos foram flagrados por Moshê (Moisés).
É dito que o trabalho foi obra da “massa confusa” que resolveu seguir com eles, mas isso não interessa – todo mundo colaborou com um adereço de ouro para a fundição da peça que ganhou vida, literalmente.
Enfim, a radicalidade de muitas orientações tem por objetivo criar uma larga margem de segurança e evitar o risco de conclusões equivocadas.
O texto a seguir é do Rabino Michael Laitman, fundador e presidente do grupo Bnei Baruch Kabbalah Education & Research Institute. Alguém pergunta se a Cabalá pode ser utilizada para adivinhação ou previsão do futuro e ele responde, baseado nas instruções da Torá:
A Torá proíbe os adivinhos, magos e mágicos porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador. O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado, pois o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade. Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia. O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas.
Sim, a resposta do Rav Laitman continua dizendo que o recurso oracular é errado, mas gosto dela porque permite argumentações que considero importantes:
“(…) porque eles desanimam o homem de fazer aquilo que ele precisa fazer neste mundo, que é se estruturar e ascender rumo ao nível do Criador”.
O maior risco da prática oracular é a dependência. É achar que para qualquer decisão o oráculo precisa apontar um caminho ou validar uma inclinação pessoal. Quanto mais a gente procura as soluções através de outra pessoa, mais invalida a sabedoria que reside dentro de nós mesmos e que se desenvolve na medida em que a exercitamos.
O oráculo é útil quando o desequilíbrio mental/emocional impede que a gente perceba as coisas com clareza e ele nos ajuda a identificar os pontos-chaves, sendo mais últil no processo de entendimento do que “estou plantando” do que na revelação do que “estou para colher”, pois uma coisa é consequência da outra.
“O homem não deve tentar escapar daquilo que o Criador lhe dá, escapar daquilo a que ele está destinado (…)”
“Escapar daquilo que o Criador lhe dá” é algo que vai ao encontro da minha visão torta a respeito de livre-arbítrio: para mim – e guardadas as devidas proporções – somos como ratos de laboratório, onde um botão verde confere água e um botão vermelho dá choque. Nós temos o livre-arbítrio, sim, de apertar o botão vermelho mil vezes se assim desejarmos, mas o resultado será sempre o mesmo até que resolva tentar o verde. Não tem Segredo que altere esta lei.
“Ah, mas Paramahansa Yogananda rasgou o seu mapa”, ok, mas é preciso ter a estatura [espiritual] de um Yogananda para se fazer isso e estas coisas acontecem através da plena consciência de si e do Todo. Se ainda não é o seu caso (como ainda não é o meu), você está apenas se enganando, querendo mudar fora antes de mudar dentro.
O Tarot, neste sentido, muitas vezes aponta para o que verdadeiramente estimula algumas atitudes/padrões mentais ou faz com que as evitemos. Não foram poucas as vezes em que ouvi um “ah, então é isso…” e são estes momentos que fazem toda a diferença. Depois disso, naturalmente sabemos “qual botão apertar”. {imagem: Tarot of the Origins}
Devemos ser como surfistas experientes que aproveitam o melhor de cada onda, pois o hocus pocus geralmente é como uma “matrix dentro da matrix”: você acha que escapou, mas está apenas preso em outra dimensão do mesmo engano.
“Mas você escreve sobre óleos, florais e energia… isso não é hocus pocus também?”
Existe uma diferença entre se buscar o realinhamento energético e usar um talismã (ou formalizar pactos nebulosos). No primeiro caso, trabalhamos o surfista, que se torna mais consciente das suas habilidades (as que possui e as que precisa desenvolver para se manter na prancha). Também quanto maior for o seu conhecimento a respeito do seu momento (a qualidade da onda em que está), melhor – isto é correto.
No segundo, espera-se que a onda perfeita “surja” sem que se tenha construído mérito para isso ou que sejamos tão bons/hábeis para aproveitá-la de forma apropriada – grande interferência do ego, via de regra. Aqui perde-se muito tempo no engano, como já escrevi, e, com raras exceções, ainda criamos mais karma negativo.
“(…) o seu desempenho de uma atividade neste mundo é o próprio processo que o capacita a trabalhar sobre si mesmo, corrigir-se e desenvolver espiritualidade”.
Toda experiência traz consigo uma oportunidade de nos tornarmos melhores do que somos hoje. Um cliente esta semana perguntou meio constrangido “mas as pessoas também te procuram quando está tudo bem, não é?”
Claro que não – e nem sou eu que vou dizer que deveriam – mas saber como aproveitar os tempos de bem aventurança é tão importante quanto saber como lidar com os tempos de adversidade.
A palavra-chave é sempre consciência. O Tarot ajuda no desenvolvimento desta consciência através do autoconhecimento até que você seja capaz de fazer isso sozinho.
Clientes são bem vindos. Clientes ajudam a criar recursos. Mas desejo que todos os clientes alcancem a felicidade e se libertem do sofrimento – e então eles deixam de ser clientes… ;)
“Se fosse necessário ao homem saber o que é que o próximo momento lhe reserva, ele o saberia”.
É verdade. Somos homens, e não anjos. É dito que os anjos sabem exatamente a consequência de qualquer um dos seus atos – todo o desencadeamento para cada pensamento, palavra e ação. Se fôssemos como anjos estaríamos vivendo outra realidade. Viver com certa dose de incerteza é parte da nossa natureza.
Vale aqui, de novo, a questão da medida correta: não é para saber todo o tempo o que vem a seguir; não é para alimentar a ilusão de que somos capazes de controlar todos os acontecimentos. Encare o oráculo como um daqueles avisos de segurança, “em caso de emergência, quebre o vidro”, e tenha certeza de não estar quebrando o vidro desnecessariamente.
“O futuro torna-se perceptível para ele somente quando o desejo de conhecê-lo não é mais motivado por motivos egoístas”.
A experiência com o oráculo deve ser sempre libertadora. Isso significa trabalhar sobre os medos, mágoas, expectativas e outros elementos de obscurecimento mental até o ponto em que as ferramentas permitem. E, mais do que isso, é um trabalho sobre o que eu necessito, e não sobre o que eu quero.
Se tarólogo e consulente assim procedem, não há, creio eu, como “estar errado aos olhos de D’us”.
Possam todos se beneficiar!
















