Quando a casa cai… mas não dói
Eu, particularmente, sempre busquei uma visão boa da carta da Torre, o Arcano XVI do Tarot. Aqui no blog já incluí um pequeno texto, extraído de uma “fonte não-taromântica”, que dá o tom da coisa: toda crise é um reajuste – um reajuste necessário para o nosso desenvolvimento rumo à autorealização. {imagem: Symbolon – não se trata de um baralho de Tarot!}
Se a Torre passa em nossa vida como um tsunami, isso tem muito a ver com o nosso grau de resistência (fixação, apego, teimosia, etc) e o esforço que o Universo precisa promover para que as mudanças aconteçam.
Não, não são, propriamente, mudanças materiais. As mudanças materiais ocorrem para que haja mudanças internas – percepções e atitudes. Cada tijolo da Torre é um conhecimento/condicionamento adquirido que deve ruir, pois não tem mais serventia. Se você ajuda na reciclagem, tanto melhor.
O que tumultua na experiência da Torre é que fica tudo fora do nosso controle. As chances foram dadas na carta da Morte (13), onde o consulente trazia a foice na mão – agora as coisas acontecem à revelia. Nestes casos, sempre lembro ao cliente que 16 é 1+6=7, ou seja, quando a Torre começa a desmoronar, pegue o Carro (7) e se afaste sem olhar para trás – sob o risco de virar uma estátua de sal…
Claro, nem sempre entendemos o que a vida está sinalizando, mas se administrarmos bem a atenção e a paciência – o budismo fala de 3 tipos de paciência e uma delas é com as coisas que nos causam sofrimento – em algum momento tudo se encaixa, pois seremos naturalmente conduzidos para onde deveríamos estar.
Resolvi escrever sobre a Torre hoje sem a intenção de fazer elaborações teóricas, mas para narrar um fato que serve de exemplo que nem só de tragédia vive o Arcano 16. Por vezes ele é apenas um muro que precisa cair para que a gente siga adiante – simples assim.
Durante o último curso de Arcanos Maiores, havia uma aluna: viúva, vó que vive a passear pelo mundo na companhia dos netos, extremamente lúcida e ativa. Desde a primeira aula que a carta da Torre aparecia para ela nos jogos, não importava o método escolhido, e eu ficava preocupado com isso, pois ela não narrava qualquer evento que se encaixasse com aquela desconstrução e eu não sabia direito de onde viria o raio.
Em uma consulta particular conversamos a respeito e eu estava mais ou menos convencido que a Torre desmoronaria em uma atividade paralela da qual ela participa e que isso a levaria para o desenvolvimento do seu próprio trabalho – possibilidades encaradas com certo desespero, o que poderia refletir muito bem a natureza da carta. {imagem Lo Scarabeo Tarot}
Anotei o jogo, como faço sempre, e por saber que o campo afetivo era algo “resolvido” – o marido foi o amor da sua vida e ela não se via passando por experiência semelhante – busquei outras interpretações para algumas combinações de cartas.
Eis que um dia ela aparece para a aula e aproveita o atraso das outras alunas para contar que surgiu um cara do nada interessado em namorar com ela: a Torre se apresentava em sua vida!
Revi o jogo e estava tudo lá, inclusive o quanto esta experiência seria transformadora. Apesar do medo, ela tem permitido que a vida flua, revendo prioridades e trabalhando consigo mesma a cada ponto em que algo nela “empacata” – de novo, as histórias de crenças e condicionamentos que precisam ser desconstituídos.
Ficar sem chão é algo típico da Torre, mas não, necessariamente, algo ruim. Isso reforça alguns pontos da questão Tarot e Atendimento, onde cabe ao intérprete abordar cada lâmina com entendimento, mostrando as suas possibilidades sem fazer de conta que está tudo bem quando não está ou encenar um drama desnecessário com a carta da Torre sobre a mesa. Isso separa os que vivenciam o Tarot daqueles que decoram palavras-chaves..
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