Zephyrus Tarot

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Você possui alguma prática espiritual?

Não são raras as vezes que, em consulta, questiono se o consulente possui alguma prática espiritual. Às vezes porque o jogo pede, às vezes estou sondando o  caminho para um conselho pessoal.

Veja bem, a pergunta não se refere a uma prática religiosa, mas espiritual. Algumas pessoas respondem que há tempos estão afastadas da igreja (centro espírita, terreiro, sinagoga, etc) por uma descrença no sistema como se isso fosse uma boa desculpa para que não se conectem com D’us ou não dediquem algum tempo para rezar/meditar.

E aí, principalmente porque as pessoas procuram o oráculo porque estão passando por problemas, muitos ficam aguardando que eu apresente algum abracadabra que será a solução para todos os males, o que é um duplo equívoco: primeiro, porque não tenho truques na manga – eventualmente um óleo, se estiver seguro de que pode ajudar – segundo, porque não acredito muito em soluções a la David Coperfield – de novo aquela história de que o que faz diferença é a reforma íntima que se alcança através do correto entendimento de si mesmo.

Lembrei de tocar neste assunto porque resolvi reler o livro Comentários sobre Tara Vermelha, escrito por Chagdud Khadro – esposa da S.E. Chagdud Tulku Rinpoche – e redescobri uma passagem muito boa sobre a razão pela qual mantemos nossas conexões ativas:

Uma pergunta que com freqüência se faz é por que devemos rogar pela bênção que nos oculta do nosso próprio carma. Considere o fato de que já vivenciamos incontáveis ciclos de existência, de que não conseguimos nos lembrar deles (a maioria das pessoas não consegue sequer lembrar-se com clareza da sua infância) nem saber que tipo de carma criamos, até que ele amadureça. Quando começamos a fazer prática espiritual e purificação do carma negativo, rezamos para que o carma do passado não amadureça subitamente, criando obstáculos tão enor¬mes que não consigamos superá-los com o nos-so nível de prática.

Por exemplo, um dos resultados cármicos do ato de matar é uma vida curta. Quem de nós pode dizer que em vidas passadas nunca foi um soldado tragado pela violência da guerra, ou um caçador ou uma ave de rapina? Se a força plena do carma desse renascimento viesse a se interpor, poderíamos morrer antes que nossa ligação com a prática espiritual pudesse se estabelecer com firmeza. A interrupção da vida pela morte representaria, então, uma oportunidade perdida ou largamente adiada e muito mais sofrimento.

Pedimos por proteção e ocultação até que os obstáculos cármicos estejam ao alcance da nossa capacidade de purificá-los, quando então poderão se tornar uma fonte de realização e não de sofrimento samsárico.

Não devemos fazer este pedido com a expectativa de que obstáculos nunca venham a aparecer. Na própria natureza do nascimento humano está a doença, a velhice e a morte, e mesmo grandes bodisatvas estão sujeitos a essas condições. No entanto, a experiência que eles têm da doença é muito diferente daquela de uma pessoa comum ou mesmo de um praticante menos realizado. Para eles, obstáculos surgem e se desfazem dentro da esfera do estado desperto não-dualista; a sua capacidade de purificar obs­táculos traz benefícios a todos os seres vivos.

Então, não importa no que você acredite, cultive com regularidade práticas espirituais em que permitam a abertura do coração e da mente para uma realidade que está além das nossas limitações de nossa compreensão e sentidos.

Não adianta fazer alguma coisa no aperto, quando eventualmente se lembrar ou “quando arranjar um tempo”. Seja disciplinado. Também não faça desta prática uma moeda de troca: “estou rezando, logo me tire desta situação”. Não é assim que as coisas funcionam.

Algumas coisas a gente passa por burrice ingenuidade, outras, porque tem que passar. Mas na medida em que nos refinamos, passamos, naturalmente, a fazer escolhas menos egóicas e, por isso mesmo, deixamos, pouco a pouco, de contrair um número desnecessário de novos karmas.

Que tal aproveitar a oportunidade para elevar o pensamento a D’us e formular uma prece de agradecimento pelo dia de hoje? Comece por coisas simples até encontrar  seu próprio jeito de fazer as coisas, sempre dedicando os méritos – grandes ou pequenos – de suas práticas para a ascenção de cada ser no planeta.

Possam todos se beneficiar!

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