Arcanos Menores: Predomínios

Publiquei no começo de julho do ano passado um post sobre Ausências e Excessos quando se trabalha com os Arcanos Menores. Eram anotações antigas, como escrevi, extraídas do livro de Stephen Arroyo, Astrologia, Psicologia e os Quatro Elementos, publicadas aqui depois de ter feito o mesmo no Orkut. {imagem: Osho Zen Tarot}

Desde então fiquei devendo, como complemento, uma abordagem do que se poderia interpretar do domínio de dois naipes/elementos em um jogo.

O primeiro post gerou uma polêmica desnecessária de gente que foi abrir o livro e depois questionou a ausência de comentários sobre Tarot ou da “tabela que transcrevi”… dã!

Como deixei claro desde o começo, o livro é sobre astrologia, mas as considerações sobre o peso dos elementos em um mapa são válidas, mutatis mutandis, para uma abordagem taromântica. Em aula, inclusive, me toquei de uma coisa e alterei uma anotação sobre o naipe de Espadas – já atualizada no post, confira. Com relação à tabela, é lógico que ela não existe, pois o que trouxe para cá foi um resumo com o que interessa para o nosso contexto.

Para abordar os predomínios, por sinal,  existe um número maior de consideraçõea a se fazer, por isso adoto uma visão mais centrada na realidade do Tarot com uma ou outra referência ao Arroyo. Encare as dicas como pontos a serem observados e não como regra fixa. Ausências, Excessos e Predomínios servem de pano de fundo (uma inclinação) para o que o jogo estará retratando, e não como prato principal.

Predomínio de Ouros e Espadas

Arroyo explica que se trata de uma combinação muito prática, por um lado, que pode se tornar (pejorativamente) burocrática se não for bem trabalhada. O Ar planeja o que a Terra precisa executar e/ou a Terra dá um sentido prático às questões filosóficas do Ar, mas podem faltar o sentimento/empatia da Água e a capacidade de correr alguns riscos do Fogo, engessando os processos.

Como o oráculo é outro, precisamos considerar que Espadas/Ar, aqui, cumpre uma função diferente. Não que o naipe esteja desassociado da mente e da forma de pensar, mas porque, via de regra, se refere às distorções desta mente e o desafio de clarear as coisas. {imagem: Osho Zen Tarot}

Uma das possibilidades, neste caso, é da pessoa se fixar nos aspectos tangíveis do problema sem se dar conta do que realmente precisa ser tratado. É como se desesperar botando água para fora do barco com um balde sem cuidar do buraco no casco – “buraco” este que deve ser entendido por vulnerabilidades psíquicas e emocionais que estão na origem do sofrimento em pauta.

No seu aspecto positivo, podemos considerar que uma pessoa dominada por cartas de Espadas tende a um certo desespero e a associação com Ouros pode lhe dar um senso prático de fazer o que precisa ser feito com ordenação, um passo de cada vez.

Predomínio de Ouros e Copas

Astrologicamente, Terra e Água dotam o indivíduo com um grande senso de autoproteção, sobrevivência e segurança, investindo boa parte de sua energia na estabilidade financeira que dá suporte à estabilidade emocional, ou seja, uma coisa está atrelada à outra. É pela necessidade de segurança, inclusive, que muitas vezes estes indivíduos se apegam demasiadamente ao que conhecem e temem o incerto.

Nas palavras do Arroyo,

no melhor dos casos, tal tipo está assentado na realidade do aqui e agora, da experiência cotidiana, e enfrenta as coisas com grande determinação e força interior. No pior dos casos, podem ser pessoas mesquinhas, manipulativas, gananciosas e, no fim das contas, profundamente frustradas na sua necessidade de assumir algum risco para favorecer seu próprio progresso.

Quando olho para as cartas, considero que esta é uma combinação importante se adotamos as medidas adequadas, pois Terra sem Água fica estéril e com Água demais vira pântano. Com sabedoria, a Terra oferece base e a Água nutre para que qualquer semente lançada encontre condições para crescer. Quando a Água é excessiva – a tal condição de pântano que poderá ser justificada pelo jogo – considere a presença de mágoas e ressentimentos deixando o caminhar pesado e escorregadio.

Predomínio de Paus e Ouros

O fogo que se alastra pela floresta pode causar uma grande devastação. O fogo alimentado em um buraco pode ser utilizado para o benefício de todos de várias formas. Quando o entusiasmo do Fogo é corretamente direcionado pelo  senso prático da Terra temos progresso. No I Ching, é a imagem do Sol que nasce no horizonte (hexagrama 35). Mas é preciso ter a pegada certa, pois a terra pode abafar o fogo – a imagem do Sol que se põe, fazendo outra referência ao Livro das Mutações – Obscurecimento da Luz, hexagrama 36.

Arroyo destaca que:

A ênfase nos elementos Terra e Fogo é denominada pela astróloga americana Zipporah Dobyns, de “rolo compressor”. Ela diz ser esta a mais criativa e produtiva das combinações, tendo a iniciativa e a criatividade do Fogo e a praticidade e o desejo veemente de produzir algo tangível. Esta combinação, segundo Dra. Dobyns, tem um impacto sobre o mundo e ainda está caminhando quando todos os outros estão caindo à beira da estrada.

Os “rolos compressores”, negativados, no entanto,  são uma ameaça tanto para os que se encontram no seu caminho como para si mesmos, pois o calor elevado retira a umidade  (afeto) da Terra e aí podemos entrar em um processo de pouca atenção aos valores/limitações dos outros e mesmo às nossas próprias necessidades/limitações.

Quando encontramos alguém com esta configuração é importante amenizar o clima de urgência e, muitas vezes, o elevado grau de exigência para que as coisas sejam feitas de forma correta no tempo apropriado. {imagem: Osho Zen Tarot}

Predomínio de Paus e Espadas

Quando predominam Ouros e Copas em um jogo, é preocupante a ausência ou fragilidade de naipes que induzem à ação. Quando predominam Paus e Espadas, a preocupação recai na combinação de dois naipes/elementos de natureza yang sem ter algo que lhes dê  aterramento.

Arroyo usa expressões como idealismo, aspiração e atitude positiva porque faz considerações baseadas no Ar astrológico. No Tarot, duas coisas podem ser observadas: uma é a capacidade de manter o pique apesar dos problemas – e isso é bom; a outra ter este Fogo acentuando um perfil beligerante em um indivíduo que está com a Espada na mão ou se sente acuado com a Espada na mão do outro. Tendência também para um certo drama, vamos combinar.

Tudo depende da natureza do jogo, mas não descarte, nestes casos, a possibilidade do consulente buscar um apoio profissional, abordando o assunto com sutileza, pois é possível que ele se julgue autosuficiente e considere a sugestão ofensiva. Atividades físicas podem ajudar a canalizar esta energia de forma disciplinada, se não houver excessos.

Predomínio de Paus e Copas

Arroyo alerta que pessoas que apresentam predominância dos elementos Fogo e Água costumam expressar tudo emocionalmente, excitadamente e de forma absolutamente impulsiva. Faltam  razão (Ar) e paciência (Terra).

Espiritualmente pode ser uma combinação interessante se houver abertura para colocar talentos mediúnicos à serviço do próximo. Astrologicamente, o livro sugere atividades ligadas ao entretenimento, mas só entraria neste mérito se a questão analisada tivesse alguma ressonância com isso.

No Tarot, Copas busca preenchimento e, Paus, autenticidade, de modo que a dica para esta dupla não poderia ser outra a não ser trabalhar a auto-realização.

Predomínio de Espadas e Copas

De todas as combinações, talvez seja a mais difícil. Se formos considerar apenas as referências astrológicas, temos razão e emoção. Se a pessoa possui um elevado grau de consciência, é possível que tempere estas duas condições (ser mais cabeça ou mais coração) na medida que a situação pede.

Se temos diante das cartas uma pessoa mediana, talvez possamos nos deparar com conflitos internos que semeam, em especial, a culpa, pois o julgamento da Espada é severo e Copas tende a buscar o prazer, algumas vezes, nos “lugares errados” – entre aspas porque certo e errado aqui pode ser um condicionamento do meio em que vive, e não algo que realmente comprometa a sua integridade. {imagem: Osho Zen Tarot}

Ponderando em cima da natureza dos naipes, a sabedoria de Copas pode injetar misericórdia no rigor das Espadas, do mesmo modo que, rasgando os véus de Maya, podemos dispersar os obscurecimentos que nos impedem de perceber o que realmente necessitamos para preencher as nossas taças.

Obviamente estas linhas não encerram o assunto e – repetindo – é sempre importante conciliar  qualquer diagnóstico com a natureza da pergunta, pois algumas combinações são extremamente benéficas para alguns temas e ruins para outros. Cada hora que volto a pensar no assunto surgem insights diferentes. Reflita e tire as suas próprias conclusões.

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