Pena x Compaixão
Inevitável para quem está circulando pelas ruas e tem boa audição “pescar” conversas que não lhe dizem respeito mas ajudam a elaborar bons exemplos para temas relevantes… :)
Volta-e-meia as pessoas questionam a diferença entre pena e compaixão achando que são nomes diferentes para o mesmo sentimento.
E aí, dentro do possível, vamos listando detalhes aqui e ali que ilustram a verdadeira natureza de uma coisa e de outra.
Essa conversa eu acompanhei no elevador do prédio onde trabalho: uma menina reclamava com a outra pela reação de uma terceira pessoa com relação a ela e, em dado momento, fez questão de enfatizar que ela ajudou em alguma coisa lá “por pena” e “foi desta forma que fulana retibuiu o favor”.
Ah, ego… sempre querendo confetes.
Não questiono se a tal fulana foi injusta ou mal-educada. Talvez tenha sido – talvez não. O fato é que quando fazemos algo por compaixão a gente não espera nada em troca – nada mesmo. Faz porque julga certo fazer. Faz porque compreende a dor/sofrimento/dificuldade do outro e deseja libertá-lo . Se a pessoa agradece, não agradece ou hostiliza, isso não lhe afeta.
Quando se trata de pena, a história é outra, pois a pena estabelece uma relação entre egos e não entre almas. Mesmo que seja inconsciente, tenho pena porque, “graças a D’us, não estou no seu lugar e – sorte sua – posso lhe ajudar” - ok, estou sendo sarcástico, mas passa por aí…
Não desejo aqui passar qualquer idéia equivocada de superioridade (até porque superioridade também é coisa do ego). Muitas vezes também fico zangado com falta de respeito/educação/consideração de outras pessoas. A indignação surge espontaneamente, mas aí acende a luz vermelha em algum momento – nem sempre de imediato – e eu paro para pensar porque me sinto daquela maneira e qual foi a minha real motivação em fazer o que fiz.
No budismo é dito que tudo depende da motivação. A motivação pura é sempre benéfica e livre de qualquer autocentramento (= ego). Você pode fazer algo aparentemente bom com a motivação errada e gerar karma negativo, como pode fazer algo aparentemente ruim que se, tiver partido de uma motivação correta, as consequências kármicas serão atenuadas.
Chagdud Tulku Rinpoche dizia que:
Agir por interesse próprio, apego ou aversão é como cozinhar em uma panela suja. Mesmo que os ingredientes sejam ótimos, preparados com cuidado e por muito tempo, a sujeira da panela estragará a comida. A capacidade de ajudar se torna extremamente limitada pelo interesse próprio.
Claro que a gente não muda de uma hora para outra. Tolice, por outro lado, também achar que esta é uma condição que jamais será alcançada, logo, “melhor nem tentar”.
O caminho deve ser sempre do aperfeiçoamento. A gente acerta daqui, erra dali. Não importa muito quantas vezes cai, mas quantas se levanta depois disso e insiste em fazer o que é certo – há quem desista com uma única queda. Se fôssemos perfeitos, não estaríamos experimentando o samsara.
Que estes pequenos flagrantes sempre nos tragam boas lições com a atenção para não flagrar apenas o outro (muito fácil), mas, principalmente, para flagrar a si mesmo, promovendo as devidas correções.
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Marcia
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Soraia
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