Keep walking!

{imagem: The Glue Society, God’s Eye View}
A história é velha conhecida de todos, exceto por algumas partes que foram preservadas apenas através do Midrash, que é o conhecimento transmitido de forma oral de pai para filho dentro da tradição judaica.
Esbarrei com o trecho no outro dia lendo o livro A Alma Imoral , escrito pelo rabino Nilton Bonder, e confesso que releitura desta passagem caiu como uma luva naquele momento. De lá para cá, acabei repetindo a história em uma consulta e em uma das aulas sem deixar de ficar emocionado e, de alguma forma, também tocando as pessoas. Espero que a mensagem também lhe diga alguma coisa.
Os hebreus acabaram de sair do Egito. O Faraó está meio atordoado depois da 10a praga, mas eles sabem que isso é temporário. Todos saem recolhendo apressadamente o que podem e seguem em direção à Terra Prometida.
Já escrevi antes, por ocasião de Pessach, que o Egito, aqui, tem um caráter simbólico, assim como a Terra Prometida. A palavra hebraica para Egito é Mitsraim, que significa “lugar estreito”. Estamos no Egito toda vez que nos encontramos em uma condição que ameaça ou limita o nosso desenvolvimento.
Quando olham para trás – pimba! – lá vem o Faraó com o seu exército pronto para exterminá-los. Apertam o passo e – ops! – são obrigados a parar diante da imensidão do Mar Vermelho.
Fiquei sabendo agora que o grupo liderado por Moshé se divide em 4 diante deste quadro:
- o primeiro grupo quer voltar e se submeter,
- o segundo deseja lutar pela liberdade,
- o terceiro prefere se lançar ao mar de qualquer jeito e
- o quarto começa a rezar.
Nilton Bonder comenta que estas são as 4 resistências do corpo. “Corpo”, no livro, é tratado como o aspecto humano afinado com as normas e convenções em contraposição à alma, transgressora por natureza – não vou entrar neste mérito agora.
O grupo que deseja voltar reúne os perfeitamente conformados com as limitações da vida. Imagino alguns praguejando algo do tipo “eu te disse”. Tem gente que prefere se acostumar à dor de dente (e se acostuma mesmo!) do que enfrentar a cadeira do dentista, fora os que têm medo de perder os argumentos que justificam a sua estagnação e até torcem secretamente para que tudo dê errado mesmo.
Com relação ao grupo que deseja lutar o livro fala em “desafiar a estreiteza como se esta fosse externa e não uma relação de externo e interno”. Achei legal isso. Mudaria apenas lutar por brigar, pois lutar soa muito nobre e, na maioria das vezes, estamos apenas reagindo mal às circunstâncias que nós mesmos construímos. O dicionário não diferencia uma coisa da outra, mas, na minha cabeça, é o que separa uma atitude madura da pirraça. E o que não falta por aí é gente pirracenta que muito reclama e pouco faz – e quando faz, mete os pés pelas mãos, pois “pensa com o fígado”, mas o fígado não pensa!
Sabemos que no fim da história a saída será pelo mar, mas os que têm esta opção em mente, por enquanto, são os desesperados. Eles não aceitam voltar à condição anterior, mas se renderam ao fato de que “o lugar amplo” não lhes pertence, logo, é melhor “resetar a máquina”
Poderíamos imaginar, até mesmo por exclusão, que orar é o caminho, mas não é. Trata-se de uma expectativa de que o “velho” lhe pareça “novo”. É muito fácil ver as pessoas fazendo isso evocando Nomes e adotando talismãs esperando que as mudanças venham milagrosamente de fora sem que haja transformação interna.
A pressão recai sobre Moshe e ele se volta para D’us pedindo ajuda, mas o Eterno apenas lhe responde: “Por que clamas a mim? Diga ao povo que marche!”.
Nachshon ben Aminadav

Neste momento você se lembra de Charlton Heston de braços abertos fazendo com que o mar se abra, mas os midrashim apontam para outro heroi, Nachshon, cunhado de Aaron. Quando ele ouve o comando de D’us, segue andando em direção ao mar. Dá o primeiro passo na água e nada acontece (nem eles sabiam o que poderia acontecer, claro). As águas alcançam seus joelhos e nada… Cobrem suas coxas… E Nachshon continua andando. Nachshon não sabe nadar. As pessoas gritam para ele da margem, mas Nachshon segue resoluto. [nota: "ch" na transliteração do hebraico tem som de "rr", como em "carro"]
As águas cobrem o peito de Nachshon, seu pescoço, sua boca, mas nada parece detê-lo. No momento em que as águas cobrem sua cabeça ele começa a se afogar. Momento crítico para todos. E então as águas começam a recuar, formando uma parede à direita e à esquerda, com Nachshon ao centro em terra seca, por onde seguem todos os seus irmãos.
Existem muitos textos rabínicos sobre esta passagem com vários ensinamentos que enfatizam a emunah (palavra geralmente traduzida por “fé”, mas também associada a “certeza” e “confiança”). A minha grande lição é que no momento do aperto, continue a fazer o que precisa ser feito. [imagem: Rider-Waite Tarot]
Às vezes é isso mesmo: a gente tem um mar à frente e um exército nas costas, o que fazer? Continue andando. Um pé de cada vez. Confie no Universo e, antes disso, em você mesmo. Sim, parar ou recuar por vezes são movimentos estratégicos, mas que eles sejam adotados de forma consciemte.
Lembrei de contar esta história em uma consulta e em aula porque ouvia das pessoas que elas estavam fazendo um esforço ao longo de algum tempo sem resultados – bem 7 de Ouros isso. E o que lhes disse, inspirado por Nachshon, é que se a gente está fazendo o que é certo, não pare. Muita gente desiste com as águas nos joelhos ainda. Talvez as águas cubram as nossas cabeças, mas, no instante seguinte, o mar se abre, acredite.
Possam todos se beneficiar!
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http://arcanodezenove.blogspot.com/ Soraia
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