Não temas o Mal
Estava aqui lembrando que tanto a edição americana como a brasileira de Não Temas o Mal traz a imagem de “São Jorge e o Dragão” na capa – pintura de Raphael Santi.
Semana passada dava aula sobre os Arcanos 15 e 16 e explicava a natureza da terceira linha do septenário, que é a transcendência do Eu em busca da Unidade (21). Para os que estranham a presença do Diabo abrindo a composição, explico que você só pode ser inteiro quando não nega as partes das quais se envergonha ou tenta não tomar conhecimento.
É preciso reconhecer o Mal que há dentro de nós antes de transformá-lo ou viveremos temendo os monstros que habitam sob nossas camas ou se escontem no armário.
Por acaso ouvia este fim de semana um discurso de que os demônios são necessários quando ocupam seus devidos lugares e como exemplo foi dado a presença de bactérias na flora intestinal – “alguém tem que lidar com aquela sujeira”, foi o que me disseram e para mim faz muito sentido.
Como hoje é dia de São Jorge, nada mais apropriado do que reproduzir este texto de introdução ao livro, assinado por Donovan Thesenga, organizador e compilador da obra canalizada por Eva Pierrakos – daí também ter optado por colocar o post na categoria “Conexões”.
É claro que ele aponta o Pathwork como caminho de cura, mas estas reflexões iniciais – e o livro como um todo, claro – vão além desta ou daquela técnica, por isso fiz questão de compartilhar.
Possam todos se beneficiar!
Eu, você e o mal
A natureza humana é capaz de um mal infinito… Hoje, como nunca dantes, é importante que os seres humanos não subestimem o perigo representado pelo mal que espreita dentro deles. Ele é, infelizmente, bastante real, e é por essa razão que a psicologia deve insistir na realidade do mal e deve rejeitar qualquer definição que o considere insignificante ou na verdade inexistente.
C. G. Jung
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Quando o mal é compreendido como sendo intrinsecamente um fluxo de energia divina momentaneamente distorcido devido a idéias errôneas, a conceitos e imperfeições específicos, então ele não é mais rejeitado na sua essência.
Trecho da palestra 184 do Pathwork
Você não é uma pessoa má. Eu não sou uma pessoa má. Contudo, o mal existe no mundo. De onde ele vem? {imagem: Morgan-Greer Tarot}
As coisas más que são feitas sobre a Terra são praticadas por seres humanos. Nós não podemos pôr a culpa nas plantas ou nos animais, numa doença infecciosa ou em influências nefastas do espaço sideral. Mas, se você e eu não somos maus, quem o é? Será que o mal reside apenas em outros lugares tais como a Alemanha nazista ou o “império maligno” da União Soviética stalinista? Ou será que ele habita somente os corações dos criminosos e dos barões das drogas, mas não os das pessoas que conhecemos?
Será ainda possível que ninguém seja mau, mas apenas desorientado? Podemos nós realmente atribuir o horror do Holocausto, ou o sadismo de Idi Amin [link para os mais novos], ou a tortura sancionada pelo governo, que acontece exatamente agora em muitos países do mundo, a uma mera desorientação? Essa palavra parece inconsistente e não basta como explicação.
Onde reside o mal? De onde ele surge?
O Pathwork ensina que o mal reside em cada uma e em toda alma humana. Ou, em outras palavras: o mal que existe no mundo nada mais é que a soma do mal que existe em todos os seres humanos.
“Mau” é um adjetivo muito forte. A maioria das pessoas quer reservá-lo para os Hitlers e para os criminosos e se nega a aplicá-lo a elas mesmas. Será ele aplicável a você e a mim?
A primeira definição de “mau” dada pelo meu dicionário é: “moralmente repreensível, pecaminoso, maléfico”. Essa definição torna claro que não é apropriado o uso da palavra para falar “dos males da doença e da morte”. Doença e morte são aspectos dolorosos da experiência humana, mas decerto não são “moralmente repreensíveis”. Por outro lado, é correto usar tal adjetivo para falar da “maléfica instituição da escravidão”.
Eu já fiz coisas que são moralmente repreensíveis e tenho fortes suspeitas de que você também fez. Todos nós temos falhas de caráter, todos somos mais ou menos egocêntricos, egoístas e mesquinhos. E essas falhas de caráter levaram-me, muitas vezes, a ser antipático, rancoroso, ciumento, e a agir de formas que só contribuem para aumentar o sofrimento no mundo. Mas isso faz de mim uma pessoa má?
Você e eu certamente não somos maus em nossa totalidade, ou em nossa essência, mas temos o mal dentro de nós. Portanto, a palavra “mal” pode descrever um contínuo de comportamento que vai desde a simples mesquinhez e o egocentrismo, num extremo, até o sadismo genocida do nazismo no outro.{imagem: Buddha Tarot}
Aqueles de nós que habitam um extremo inferior do espectro podem ter o desejo de dizer que nada tem em comum com os assassinos do extremo oposto; contudo, será que não temos mesmo nada em comum com eles? Para usar o segundo daqueles sinônimos oferecidos pelo dicionário, não somos todos nós pecadores!
Há trinta ou quarenta anos atrás, a palavra “pecado” ainda era de uso comum, mas hoje (a não ser entre os fundamentalistas) ela praticamente não é mais empregada. Agora preferimos usar a terminologia da Psicologia, que fala antes dos defeitos e falhas humanos, mas normalmente de uma maneira que põe a culpa alhures – nos pais ou na sociedade – por fazerem de nós o que somos. A mudança pessoal então ocorre quando compreendemos a origem da programação negativa que os outros nos infligiram, vivenciamos todos os sentimentos envolvidos (fundamentalmente raiva e pesar) e então perdoamos a fonte externa da nossa negatividade, da qual ainda sofremos. E isso é uma parte crucial do processo de transformação.
Contudo, na visão da Psicologia nós perdemos algo que a velha idéia religiosa do pecado nos deu. A saber, que somos responsáveis pela nossa negatividade, pelos nossos atos e omissões. Ser responsável é muito diferente de ser culpado. Significa simplesmente reconhecermo-nos às vezes como a origem da dor, da injustiça e do descaso para conosco mesmos, para com os outros e para com o mundo.
Susan Thesenga, O Eu Sem Defesas
Se eu posso admitir esse grau de responsabilidade – admitir que não sou apenas uma vítima do mal que há no mundo, mas que sou, da minha própria pequena maneira, um iniciador de negatividade – então o que devo fazer a respeito? Como posso transformar o mal que existe em mim?
A religião tradicional nos dá preceitos morais a serem seguidos, tais como: “Faça aos outros o que desejaria que eles fizessem a ti” e “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Certamente nós podemos concordar que, se todos pautassem a sua existência por essas regras áureas, o mundo seria um lugar muito mais agradável de se viver. Eu não o faço e você não o faz. Se aceitamos o princípio como válido, por que é tão difícil segui-lo? Como posso mudar o meu comportamento? O que preciso fazer para tornar-me mais amoroso? Com demasiada frequência a resposta da religião tradicional parece ser apenas: esforce-se mais.
Na religião tradicional, segundo as palavras de Carl Jung:
Todos os esforços são feitos para ensinar crenças ou condutas idealistas às quais as pessoas sabem em seus corações que jamais poderão corresponder, e esses ideais são pregados por pessoas que sabem que eles mesmos nunca corresponderam, e nunca corresponderão, a esses elevados padrões. E mais: ninguém jamais questiona o valor desse tipo de ensinamento.
Carl Jung, Memórias, Sonhos e Reflexões
As respostas da religião tradicional têm sido tão decepcionantes que muitas pessoas que antes teriam consultado um clérigo agora consultam um psicoterapeuta. A moderna Psicologia tem sido bem-sucedida ao tratar com o problema do mal?
Um recente artigo sobre Abraham Maslow, o pai da psicologia humanista, afirma:
Ao final da sua vida, Maslow estava lidando com a natureza da maldade humana. … [Ele] expressou apreensão quanto à incapacidade da Psicologia humanista e transpessoal em assimilar o nosso lado ‘escuro’ (aquilo que Jung denominou a sombra) em uma teoria abrangente da natureza humana. O próprio Maslow considerava esse tema preocupante e, na ocasião de sua morte, não havia chegado a qualquer conclusão final sobre ele.
Edward Hoffman
Aqueles dentre nós que estudaram e praticaram o Pathwork descobriram, com um sentimento de alívio, que esses ensinamentos fornecem o elo perdido crucial que tem até aqui escapado à religião e à psicologia.
A vasta maioria das transmissões espirituais da atualidade, ou material canalizado, concentra-se na bondade essencial dos seres humanos, na nossa natureza divina final. E essa é uma mensagem valiosa para o nosso tempo. Mas o que faremos com o nosso “lado escuro”? De onde ele vem, por que é tão intratável e como devemos lidar com ele?
É nas respostas a essas questões que repousa o valor único do Pathwork. A transmissão que veio através de Eva Pierrakos ensina-nos que o mal pode ser encontrado de alguma forma no coração de cada ser humano, mas que ele não precisa ser temido e negado. Um método é oferecido para que possamos ver claramente o nosso “lado escuro”, compreender suas raízes e causas e, o que é mais importante, transformá-lo. O resultado dessa transformação será paz no coração humano, e só depois que esta for alcançada haverá paz na Terra.
Este caminho exige de um indivíduo aquilo que a maioria das pessoas está menos disposta a dar: verdade para consigo mesmo, exposição daquilo que existe agora, eliminação de máscaras e fingimentos e a experiência da sua vulnerabilidade nua. Isso é muito, e contudo é o único caminho que conduz à verdadeira paz e integridade.
Trecho da palestra 184 do Patwork
~ Donovan Thesenga
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