Respeito e Privacidade

Entro no MSN e vejo um amigo online. Pergunto como ele passou pelas festas de fim de ano e continuo fazendo o que me levou ao micro.

Alguns bons minutos depois surge uma janela com ele pedindo desculpas, pois não se sentia bem (imagino o motivo) e conversar não estava nos seus planos naquele momento – o status era de  “ocupado”, mas ele já havia autorizado que falasse com ele mesmo assim, pois às vezes fazia isso apenas para afastar os chatos.

Mando  um abraço e desejo que ele melhore rapidamente – ponto. Ele é um amigo querido e sei que no momento em que estiver bem, ou caso precise de mim, fará contato. Nada mais chato do que alguém insistindo para você dizer o que não está a fim de falar.

A situação não me estressa em momento algum e isso não significa que sou indiferente ao seu problema, mas gosto de pensar que dou ao outro o espaço que gosto de ter para mim – algo nem sempre fácil conseguir.

Algumas coisas são muito simples:
PRIVACIDADE = RESPEITO

Cruzar este limite significa se colocar acima da individualidade alheia. Já rompi com algumas pessoas sem menor arrependimento pela falta de privacidade e sou obrigado a conviver com outras apenas para evitar dramas maiores. Falta de respeito – em todos os sentidos – é algo que definitivamente me tira do sério.

Nestes casos específicos de invasão, muitos alegam atenção, preocupação, amor… tudo mentira ilusão. Uma coisa não justifica a outra, exceto por raras (repito, raras, tipo risco de vida) exceções – salvar uma vida precede qualquer regra. São desculpas convencionais para se meter onde não foi chamado(a), para controlar a vida do outro, marcar território ou para dar algum sentido à sua própria vida. A pessoa fofoqueira, por exemplo, ainda que precise saber o que se passa na vida dos outros apenas para si, é, antes de qualquer outra coisa, uma pessoa doente.

Os atuais recursos da tecnologia, por sinal, são inimigos ferozes da privacidade. Você tem uma conta no Orkut, Facebook, Twitter ou qualquer outra ferramenta social apenas para reunir amigos  e logo surgem “vampiros virtuais” para acompanhar seu dia-a-dia como se fosse uma extensão do dia-a-dia deles.

Um blog, mesmo que não seja pessoal, não está livre disso. Eventualmente, “o que fulano anda fazendo” pode ter mais valor do que a informação ofererecida. E nem preciso ir muito longe: a K, do Incompletudes – este, sim, todo escrito na primeira pessoa – a cada vez que fica uns dias sem publicar algo tem a sua caixa postal entupida de mensagens perguntando “o que há de errado” (por acaso, desta última vez, rolou uma zica mesmo, mas cabe a ela decidir quem quer por perto nestas horas).

Não estou aqui escrevendo sobre não ajudar. Ser prestativo, atencioso e solidário é mais do que louvável; o que condeno é a intromissão – a imposição da presença, de idéias e opiniões quando estas não são solicitadas, não importa se “a intenção é boa”.

Lembro de um programa do Gasparetto em que ele pergunta para uma mulher se ela se achava capaz de fazer outra pessoa feliz. Rapidamente imaginei que a resposta correta seria algo do tipo “não, cada um é responsável pela própria felicidade”, mas quando a entrevistada arriscou um “sim” ele gritou “egoísta!”, justificando que ela não agia pelo outro, mas por ela mesma.

Até pensei que se tratava de uma avaliação específica, mas descobri, na seqüência, que este é o posicionamento geral do médium nestes casos, o que me fez lembrar de alguns textos do Osho onde ele questiona o que muitos entendem, equivocadamente, por altruísmo e defende a idéia de que você só pode oferecer o que tem para dar, que é outra coisa boa para se refletir.

O Budismo, ainda que pregue bastante doação e generosidade,  é muito claro no questionamento da real motivação por trás de cada atitude, por mais virtuosa que esta pareça ser.

Sem sombra de dúvida existem pessoas que precisam de ajuda e outras aptas a ajudar, mas, entre outras coisas, é preciso casar esta aptidão com a necessidade em pauta, pois nem sempre nos envolvemos com aquilo que podemos dar conta e, por vezes, ainda pioramos a situação…

Vem à minha mente a frase If you build it, they will come! (“Se você construir, eles virão!”), do filme  Campo dos Sonhos, com Kevin Costner.

Uma cliente ligou dia desses perguntando se eu me lembrava do jogo dela e o que poderia ser dito a partir dele com relação ao marido – eu, de fato, rapidamente havia apontado uma situação que teria um significado para ela e outro, próximo, para ele.

Respondi da melhor maneira possível que havia jogado para ela, não para ele, e não tinha por hábito falar de outras pessoas num jogo, a não ser quando realmente necessário.

Ela comentou, então, que estava preocupada com o marido e não sabia o que fazer, pois ele não é de se abrir. Sugeri que o melhor era, obviamente, perguntar para ele se havia algo incomodando e, independente da resposta, deixar claro que ela estaria ali no momento em que ele precisasse – isso, pelo menos, era o que eu gostaria que fizessem por mim, arrematei.

If you build it, they will come!

A Torá conta que Avraham tinha sua tenda no deserto aberta dos 4 lados para que pudesse receber viajantes de qualquer direção e lhes oferecer água, comida e descanso. Ele não saía catando as pessoas no deserto. Ele estava lá, atento e à disposição. Quando alguém passava por perto, mostrava-se amistoso e receptivo para que o outro se aproximasse ou ia ao encontro da pessoa e a convidava para uma pausa na jornada.

Avraham é um ícone judaico da hospitalidade, mas, para receber forasteiros quando estes surgissem do nada, precisava ter uma boa estrutura para si e para os seus (a gente fala de tenda, mas certamente devia ser um pequeno acampamento com familiares e pessoas a seu serviço).

Quer ajudar? Comece analisando seus pensamentos, sentimentos e ações, revendo suas necessidades, trabalhando suas imperfeições. Torne-se uma pessoa melhor e as coisas começarão a acontecer. Às vezes a gente ajuda de formas que nem sabe está ajudando. Não dite regras mas, ao invés disso, busque ser um bom exemplo.

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