
Já vimos antes que “mulher-Temperança” adicionava água ao vinho de uma taça com o objetivo de diluí-lo de forma pontual: mistura e serve para alguém beber – fim da história. {imagem: Art Noveau Tarot}
O “anjo-Temperança”, por sua vez, porta duas ânforas e verte continuamente o conteúdo delas de uma para o outra, mantendo a circulação da energia por um tempo indeterminado – escrevo sobre o fluxo em si no próximo post, associado à saúde.
Como o fato de termos dois conteúdos diferentes já não fica tão evidente, em muitos baralhos temos uma ânfora de prata e outra de ouro, que representam dualidades clássicas na tradição hermética da mesma forma que a dobradinha yin e yang funciona para os orientais.
As dualidades estão presentes em muitas lâminas do Tarot: o Mago aponta para o Céu com uma das mãos e para a Terra com a outra; a Papisa se coloca entre duas colunas; o Papa tem dois acólitos, o Enamorado duas mulheres e o Diabo dois escravos; o Carro é puxado por dois cavalos; o Sol traz duas crianças; a Justiça carrega uma balança com dois pratos…
A Temperança parece não fugir à regra, mas uma coisa a diferencia: ela traz consigo a habilidade de reunir dois elementos para criar um terceiro completamente novo. É sobre isso que eu quero escrever hoje.
Existe uma abordagem mais espiritualista a este respeito. Romper com as dualidades, neste caminho, seria alcançar uma conexão genuína com a Unidade, que está além do tempo, espaço e movimento, mas não estou levando o assunto a este nível da experiência – que na Temperança, por sinal, ainda está longe da real possibilidade de auto-realização da carta do Mundo.
A dualidade aqui é tema porque a mente ordinária (no sentido de comum, e não de inferior) está habituada a perceber o mundo através das comparações: eu reconheço a saúde a partir da doença, o belo a partir do feio, e por aí vai…
Estabelecer o peso de uma coisa a partir de outra, por sinal, é bem do feitio da carta da Justiça – cheguei a escrever um pouco a respeito, estabelecendo, inclusive, um rápido paralelo entre as duas lâminas – e uma conseqüência natural disso é uma visão de mundo dividida entre “gosto” e “não gosto”.
“Gosto” e “não gosto”, em suas condições extremas, levam ao apego e à aversão. Nâo se trata aqui de se discutir preferências, mas como se reage a elas. Penso nas cartas do Tarot que melhor representariam estas forças e vejo o Diabo (15) e a Morte (13), respectivamente. E quem está entre eles? A Temperança (14).

Em uma das etapas do processo alquímico – e é muito difícil descrever a Temperança sem ficar tentado a escrever um pouco sobre Alquimia – o Sol e a Lua (o conteúdo das ânforas dourada e prateada, respectivamente) são dissolvidos em um único recipiente para que deles se obtenha a prima materia (o elemento primordial ou indiferenciado) que dará origem, mais adiante, à Pedra Filosofal . No Solutio, a água faz com que cada componente perca a sua identidade; eliminando as resistências de ambos. {imagem: Oswald Wirth Tarot}
É dito qe se você tenta fazer uma coisa sempre da mesma maneira e encontra o mesmo resultado insatisfatório é porque precisa tentar algo diferente. Da teoria para a prática, por vezes nos deparamos com uma enorme dificuldade em mudar porque possuímos “verdades invioláveis” que condicionam nossas atitudes por mais que, na melhor das hipóteses, tenhamos consciência do problema.
“A Morte transforma; a Temperança transmuta”. Esta foi uma das primeiras coisas que aprendi sobre estes dois Arcanos. A água evapora, condensa e precipita, mas não deixa de ser água – isto é transformação. Quando a essência é alterada, como no caso do chumbo (Pb) que se converte em ouro (Au) – dois elementos distintos na tabela periódica – estamos diante de uma transmutação.
A presença da Temperança em um jogo pode indicar a mudança que se faz necessária se encontra em um nível mais profundo. Muitas vezes entra em cena tratamentos psicológicos de resignificação das falsas crenças ou as terapias que mexem no corpo energético, como é o caso da Cura Prânica, que atua no conteúdo emocional do paciente removendo elos psíquicos que o impedem de seguir em frente.

Algumas pessoas falam mal de um relacionamento marcado pela Temperança, mas, pela minha ótica, o que acontece muitas vezes é que as energias mescladas promovem mudanças significativas nos padrões de corportamento de ambos para melhor. {imagem: Thoth Tarot}
“Isto também ocorre com a carta da Morte?”
Ocorre. A diferença é que a Morte muda pela cobrança que o outro me faz ou eu mesmo me faço para estar à altura do outro – na maioria das vezes, um processo unilateral. A mudança da Temperança (de novo cabe o uso da palavra transmutação) é sutil, faz com que as diferenças não “se atritem” e promove alterações positivas, de dentro para fora, na forma de pensar, sentir e se relacionar – entre eles e com o mundo que os cerca.
“E por que você diz que muda para melhor?”
Porque está implícito na Temperança – ou no processo alquímico, como um todo – o refinamento dos seus componentes. Obviamente, se a Temperança não está bem no jogo de um casal, podemos pensar que não existe troca entre eles ou que esta mistura de energia os está envenenando – isto também acontece, claro – e o mais provável é que eles não se percebam prejudicados até que algo mais radical aconteça.
Para quem está lendo este post agora, peço para que o anjo da Temperança promova a alquimia interior que você necessita para que uma nova consciência desperte em direção à liberdade e à integridade.
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Índice para a Temperança:
