Zephyrus Tarot

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“Anjos não têm livre-arbítrio”

Há muito o que se pensar quando a figura da Temperança deixa de ser representada por uma mulher para que um anjo assuma a sua posição. {imagem: Visconti-Sforza Tarot}

Outros elementos foram alterados, mas coloco o foco apenas neste, por enquanto.

Lembrando um pouco do que escrevi sobre a carta da Justiça – temos, de cara, a troca de um julgamento baseado em princípios morais estabelecidos pela sociedade – leia o post anterior sobre moderação – para lidar com pesos e medidas de ordem espiritual.

Lembrei da frase que adotei como título porque, na “febre dos anjos”, falava-se muito sobre isso, perpetuando a idéia equivocada que eles obedecem nossos comandos sem qualquer critério. Aproveito a oportunidade comentar a respeito.

Não que eu seja especialista no assunto, mas, dentre as muitas coisas que ouvi a respeito, uma fez sentido: quando se atribui o livre-arbítrio ao homem, fica implícita a idéia de que desconhecemos a complexidade da interdependência de cada decisão que tomamos – como cada ação repercute em diferentes níveis da realidade, afetando tudo o que nos cerca e além.

Cada um, de modo geral, segue ou transgride uma série de regras baseadas em crenças coletivas que, ainda assim, são limitadas com relação aos seus infinitos desdobramentos – de novo, não me refiro somente ao próximo e imediato, mas, principalmente, o que está além da nossa percepção de tempo e espaço.

Neste sentido, o livre arbítrio tem muito a ver com o quanto você endossa algo declarado como “certo” ou “errado” e a “recompensa” por trás disso – ainda que não se tenha certeza absoluta disso.

“Não roubar”, por exemplo, é visto com certa relatividade por muitos de nós. Para mim, é muito claro o roubo, por exemplo, se pego um produto de uma loja sem pagar, mas nunca foi problema imprimir ou tirar cópia, no trabalho, de um material pessoal – quem nunca fez isso na vida que aperte primeiro a tecla enter.

Dentro de princípios budistas, contudo, um simples clipe de papel utilizado fora do contexto e sem a autorização do dono da empresa é considerado um roubo, assim como o tempo no trabalho que se usa para não trabalhar.

Ninguém espera – eu, inclusive – que haja algum dano por causa destas pequenas coisas. Se tivéssemos certeza de todos os elementos envolvidos, poderíamos agir diferente em função do que estamos dispostos (ou não) a pagar, mas não é o caso. Funciona assim comigo e com você.

Esta não é a condição do anjo. Ele conhece a cadeia de eventos que se desenvolve a partir de cada ação, logo, a sua ausência de livre-arbítrio não está associado à sua subserviência aos nossos desejos, mas à sua certeza de estar fazendo o que precisa ser feito em sintonia com algo muito maior. {imagem: Vision Quest Tarot}

A tradição judaica entende, por exemplo, que o que chamamos de anjo da guarda não é outra coisa a não ser um aspecto mais elevado de nossa própria alma (Neshamá), e não algo “fora” de nós. E que ele é responsável tanto pela nossa proteção quanto pela criação de obstáculos que, por mais que pareçam um castigo, cumprem o propósito de despertar talentos necessários para o nosso desenvolvimento.

Quando o anjo da Temperança aparece no jogo, devemos estabelecer um contato de alma para saber o que a vida espera de nós e como todas as peças se encaixam – não é à toa que temos um anjo sobre o Enamorado.

Considere a possibilidade de informações, pessoas e eventos não percebidos estarem sintonizados com a sua questão provocando algum tipo de inteferência ou agilizando o seu propósito.

Pensando que nada ocorre por acaso, lembrei da imagem do Vision Quest, onde o Arcano XIV é ilustrado por uma tecelã cuja obra ganha vida. Muito significativo, isso, apesar da aplicação de uma simbologia completamente diferente.

A vida nada mais é do que este exercício de combinação e mistura de muitos aromas, sabores e cores. Quando nos deixamos guiar pelo ego, nem sempre conduzimos as coisas da melhor maneira. Quando escutamos o anjo, contudo, tudo flui na medida certa e no tempo adequado.

Temperança, Paciência e Ansiedade

Poderia reservar um post apenas para escrever sobre a questão do tempo, mas aproveito  embalo. O tempo da Temperança é sempre o tempo que precisamos – nem mais, nem menos. Timing é tudo. Para um investidor da Bolsa, é o que separa o lucro do prejuízo.

Os queixosos, de modo geral, são os que esperam tudo para ontem, os que precisam que suas necessidades sejam satisfeitas de imediato.

A Ansiedade – um dos males deste século – reside exatamente no fato de estarmos “mal encaixados na linha do tempo”, pois a ansiedade, entre outras coisas, revela a nossa incapacidade de viver plenamente o presente.

O ansioso é alguém que sofre antecipadamente com o que ainda não viveu. Ele deveria estar aqui-agora, mas está em uma dimensão de possibilidades não confirmadas. {imagem: Crystal Tarot}

Nestas horas devemos cultivar a Paciência, considerada a maior das virtudes, porque com ela aprendemos a viver cada momento como único e precioso.

E mesmo se o presente é problemático, existe a consciência de que as dificuldades surgem de acordo com o que semeamos no passado e que agir de forma reativa apenas cria mais sementes negativas para o futuro.

Se, por outro lado, acolhemos o que a vida nos apresenta neste instante e desenvolvemos uma atitude correta com relação a isso, a adversidade acabará sendo purificada cedo ou tarde.

Talvez você argumente: “Marcelo, sinceramente, isso não existe!”, mas não confunda a sua inaptidão (ou a minha!)  com a real natureza das coisas. O caminho pode ser árduo, mas não impossível de ser trilhado.

As cartas que mais rejeitamos representam o que a gente mais precisa. Se você tem um sentimento de incômodo ou aversão com relação à Temperança, medite nela, permitindo que a água trocada pelas ânforas tenham um efeito tranqüilizador.

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