Sabedoria além das palavras
Posted by Marcelo BuenoSep 23
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Desde muito cedo sempre me identifiquei com as deidades associadas à sabedoria em diferentes tradições: a primeira divindade grega que me chamou a atenção foi Palas Athena; quando entrei em contato com o hinduismo, logo me apeguei a Ganesha e a Saraswati (quem pensa que o única atributo de Ganesha é remover obstáculos, sabe muito pouco a respeito dele); antes mesmo de conhecer o budismo com um pouco mais de profundidade, encontrei com Manjushri e tinha comigo que ele seria o meu yidam (divindade meditacional) se a coisa evoluísse.
Bom, já contei aqui que o meu ingresso efetivo no budismo se deu através da Tara Vermelha e, na minha retomada, mais de 10 anos depois, escolhi Tchenrezi por yidam. Para ser sincero, nem cogitei a idéia de Manjushri e, a bem da verdade, não tive nenhum conhecimento de iniciações a ele desde então.
De um modo ou de outro, uma decisão clara era sair do meu condicionamento de pensar mais do que sentir, ainda que todo o budismo seja pautado no despertar da bodhichitta, que é tanto o despertar (bodhi) da mente como do coração (chitta se aplica a um e a outro, embora “consciência” seja a tradução mais exata).
Ontem participei de um grupo de estudos que foi batizado “na última hora” de Manjushri – se a pessoa que coordenou o trabalho tinha isso em mente antes de iniciá-lo, não comentou nada, de modo que, para mim, foi uma surpresa.
Achei não apenas significativo (até porque não se trata de um grupo budista) como hoje recebi uma mensagem da KTC pedindo doação de revistas para a biblioteca Casa de Manjushri, que eu conheço fisicamente, mas não sabia ter este nome.

Saraswati
Diferentes textos podem mostrar Manjushri como buddha ou bodhisattva. Estava meio confuso com relação a isso. Khenpo Karthar Rinpoche explica que embora tenha alcançado a realização plena – daí ser considerado um buddha – ele teria escolhido assumir a forma de um bodhisattva até que o samsara estivesse vazio, mas, no meu entender, esta é a história de todo bodhisattva… O fato é que, dependendo do lugar, o título muda. No site da editora Tharpa, por exemplo, de linhagem Nova Kadampa, há duas representações, tanto para Manjushri como para Maitreya – que para mim é um buddha, mas parece que também pode ser visto como bodhisattva.
Para quem não entendeu nada, samsara é o ciclo contínuo nascimento e morte e nirvana é a libertação de toda ilusão – quem alcança o nirvana não tem necessidade de reencarnar, para resumir a história. Um bodhisattva é aquele que abre mão de ingressar no nirvana para instruir e encaminhar outras pessoas a este estado de consciência iluminado.
Seja como for, Manjushri (Jampal, em tibetano) personifica a sabedoria de todos os Buddhas.
Ele possui formas pacífica e irada e pode ser representado em diferentes cores – cada uma com um atributo evidenciado. Na sua iconografia clássica, sua pele é de cor laranja/dourada como o Sol. Na mão direita ele empunha uma espada flamejante que corta todas as ilusões. Na esquerda, tem uma flor de lótus (representando a compaixão) que apoia um exemplar do Prajnaparamita Sutra, que é o sutra da “Perfeição da Sabedoria” – também conhecido como Sutra do Coração.
Manjushri é de grande importância para o budismo porque a a eliminação de toda forma de ignorância é a meta a ser alcançada por todos. Acho interessante que, em inglês, enlightenment serve tanto para “iluminação” do ponto de vista espiritual como “esclarecimento” no seu aspecto mais ordinário. Para quem se assusta com a idéia de iluminação, tenha em mente simplesmente isso. Não se trata de sair voando ou materializar coisas, mais a obtenção de um apurado grau de esclarecimento a respeito das coisas.
Citado em muitos textos, Manjushri para mim é um tipo de Moshé (Moisés) budista: da mesma forma que os hebreus, aos pés do Sinai, não suportaram a pressão espiritual da presença de D’us e pediram para que Moshé fosse Seu intelocutor, Manjushri, como discípulo de Buddha, tem participações importantes em muitos sutras, pois faz comentários e indagações que tornam as palavras de Buddha mais acessíveis à mente que ainda não alcançou níveis mais elevados de compreensão do dharma.

Sílaba Dhih
Om Ah Ra Pa Tsa Na Dhih
Possam todos se beneficiar.

















