Praticando a Bondade-Amorosa
Escrevi sobre Amor-Compassivo uma vez e retorno agora com texto editado da monja budista Pema Chödrön, autora de três livros que sempre recomendo nas crises: 1. “Quando tudo se desfaz”, 2. “Lugares que nos assustam” e 3. “Comece onde você está”. Apesar de esgotados, ainda é possível encontrar um ou outro título, em português, em algumas livrarias – importado é mais fácil.
Apesar das referências budistas, não se trata de uma prática restrita. É princípio básico de qualquer caminho religioso fazer o bem e evitar o mal, assim como desejar ao próximo o que deseja para si mesmo.
A prática é sobre conectar-se com o ponto sensível de uma maneira que seja real para nós, não sobre fingir um sentimento específico. Simplesmente localize essa capacidade de sentir afeto e a acalente, mesmo se ela oscilar ou refluir.
Antes de iniciar a prática da aspiração, sentamo-nos em silêncio por alguns minutos. Então iniciamos a prática dos sete estágios da bondade amorosa. [...] Depois de fazer essa aspiração para nós mesmos e para alguém a quem amamos com facilidade, passamos para um amigo. Esse relacionamento deveria ser um pouco mais complicado. [...] Podemos ficar quanto tempo desejarmos em cada etapa desse processo sem nos criticarmos se, algumas vezes, acharmos que está artificial ou inventado.
O quarto estágio é cultivar a bondade amorosa por uma pessoa neutra. Esta seria uma pessoa que encontramos, mas que não conhecemos realmente. Não nos sentimos desta ou daquela maneira com relação a esta pessoa. [...] Então observamos, sem julgamentos, para ver se nosso coração se abre ou se fecha. Praticamos tomar consciência de quando a ternura está contida e quando ela está fluindo livremente.
[...] o ponto é considerar todas as pessoas que encontramos como nossos entes queridos. Notando e valorizando as pessoas na rua, na padaria, nos congestionamentos de tráfego e nos aeroportos, podemos aumentar nossa capacidade de amar. Usamos essas aspirações para enfraquecer as barreiras de indiferença e liberar o coração gentil da bondade amorosa.
O quinto estágio da prática da maitri é trabalhar com uma pessoa difícil, alguém que consideramos irritante, uma pessoa que, ao vê-la, protegemos nosso coração com uma armadura. [...]
Os relacionamentos difíceis, por nos desafiarem até os limites de nossa compreensão, são, de muitas maneiras, os mais valiosos para a prática. As pessoas que nos irritam são aquelas que, inevitavelmente, nos arrancam o disfarce. Por intermédio delas poderemos vir a enxergar, com muita clareza, as nossas defesas, Shantideva explicou isso desta maneira: Se desejamos praticar a generosidade e aparece um mendigo, isto é uma boa notícia. O mendigo nos proporciona a oportunidade de aprender a doar. Da mesma forma, se queremos praticar a paciência e a bondade amorosa incondicional, e nos aparece um inimigo, estamos com sorte. Sem aqueles que nos irritam, nunca teríamos a oportunidade de praticar.
O sexto estágio da prática é chamado de “completa dissolução das barreiras”. Visualizamos a nós mesmo, nossos entes queridos, um amigo, uma pessoa neutra e o nosso inimigo – todos, em pé, na nossa frente. Neste estágio, nós tentamos nos conectar com o sentimento de coração gentil para com todos esses indivíduos. [...]
O sétimo e último estágio é expandir a bondade amorosa a todos os seres. Expandimos nossa aspiração até onde conseguimos. Podemos começar com aqueles que estão próximos e gradualmente, alargar o círculo para incluir a vizinhança, a cidade, a nação, o universo. [...]
Ao término da prática da bondade amorosa, abandonamos todas as palavras, todos os desejos e, simplesmente, retornamos à simplicidade não conceitual da meditação sentada.
~ Pema Chödrön, extraído do livro Os lugares que nos assustam, copiado do blog Para Ser Zen.
—-
Observações:
- A aspiração de bondade-amorosa é, de modo geral, baseada no primeiro verso da Prece dos Quatro Incomensuráveis: “Que todos os seres sencientes possuam a felicidade e as causas da felicidade”. A prece completa você encontra aqui. Você pode adaptá-la para cada estágio, substituindo “todos os seres sencientes” pelo que for correspondente (“eu”, “Maria”, “João”, “meus colegas de trabalho”, etc) ou fazer uma oração pessoal, contanto que haja equanimidade – você deseja a mesma coisa e com igual motivação para a pessoa que mais ama e a que mais odeia.
. - Apenas para que não haja dúvidas, os estágios 1, 2 e 3 foram condensados no 2o parágrafo. São eles: você mesmo, alguém que você ama e um amigo.
.
- O link do Para Ser Zen leva para a categoria “Bondade Amorosa” do blog, que apresenta este texto e ensinamentos igualmente benéficos de outros mestres. O próprio post “Passo a Passo” (eu alterei o título aqui) faz parte de uma seqüência que pode e deve ser acompanhada com carinho.








