Pedro: a Pedra, a Chave, a Porta

Publicar um post sobre São Pedro é uma daquelas contradições da minha vida. Não seria se fosse um post sobre Santo Antônio (que deixei passar em branco) ou São Francisco – apesar de já ter dito aqui antes que não sou católico – mas São Pedro?

Não sou devoto de Pedro, mas, quando penso nele, me agrada o exercício simbólico da chave e da porta. No Tarot, encontramos as chaves do Papa nas mãos da Papisa – me refiro especificamente ao baralho desenvolvido por Oswald Wirth. Na ilustração de Peter Paul Rubens, acima, o apóstolo traz consigo uma chave de ouro na mão direita e uma de prata na esquerda. {image: Oswald Wirth Tarot}

A chave de ouro é solar e abre as portas da razão (ou através dela); a chave de prata é lunar e abre as portas da intuição (ou através dela).

As duas chaves poderiam estar na mesma mão, como na carta do Tarot ou em um chaveiro, como vemos em outras ilustrações, mas o artista deixa “rastros” sutis ao considerar a polaridade das mãos: a direita é masculina/ ativa/ doadora, enquanto a esquerda é feminina/ passiva/ receptora.

Em Mateus 16:19, contudo, encontramos algo menos hermético: Jesus entrega a Pedro (antes, Shimon bar Yonah) as chaves dos Céus, dizendo que o que ele ligasse (ou desligasse) na terra também seria ligado (ou desligado) nos Reinos Superiores.

Na verdade, muito antes disso, esta condição havia sido estabelecida por D’us para todos os homens – e não apenas um – na outorgar da Torá. Ensina a sabedoria judaica que, até então, o Reino dos Céus pertenciam a D’us e o Reino da Terra pertencia aos homens (Salmo 115:16), mas, a partir da entrega da Torá, estas duas dimensões passam a interagir, de modo que as influências superiores descessem ao mundo físico, assim como, através de nossos pensamentos, palavras e ações, passamos a ser capazes de elevar a natureza de todas as coisas.

As mitsvót judaicas nada mais são do que chaves que ligam e desligam – não é por acaso que podemos traduzir a palavra mitsvá como “conexão” (mitsvá, singular; mitsvót, plural). As mitsvót se referem às coisas que devemos fazer para estarmos próximos de D’us e às coisas que devemos evitar para que não nos distanciemos Dele.

Mas o meu objetivo aqui não é, necessariamente, falar de princípios religiosos. É interessante a expressão “ligar” associada às chaves de São Pedro. Entendi porque Alexsander Lepletier usa a mesma palavra para a carta de número 33 do Baralho Lenormand (aka Baralho Cigano) – a Chave – que também indica a resposta para as perguntas que nos atordoam ou a solução para nossos problemas.

A chave certa abre ou fecha a porta correspondente. Abrir uma porta é ter acesso a outro lugar. Pode ser um acesso para fora, pode ser um acesso para dentro, pode ser um acesso a outras dimensões. Fechar uma porta limita e protege.

É dito que “quando D’us fecha uma porta, outra se abre”, ainda que, verdadeiramente, sejamos os únicos responsáveis pelo abrir e fechar de portas em nossas vidas.

Os problemas surgem quando abrimos portas que deveriam ser (ou permanecer) fechadas e fechamos portas que deveriam ser (ou permanecer) abertas. {imagem: Petit Lenormand}

Na Torá, encontramos em Devarim 16:18 (o que corresponde a Deuteronômio no Velho Testamento) que  “Juízes e oficiais colocarás em todos os portões de tua cidade”. A cidade é o corpo físico e os portões são os orifícios de contato com o mundo exterior.

Guardar os portões significa filtrar tanto o que entra (o que absorvemos em todos os planos – físico, mental e emocional) quanto o que sai (aquilo que provocamos através dos pensamentos, palavras e ações), evitando comportamento e estímulos indesejáveis.

Embora a gente só pense em abrir portas, saber fechá-las é igualmente  importante,  por isso devemos nos empenhar no desenvolvimento da Inteligência Discriminativa.

Hoje, às 4-e-pouco da manhã, estava eu insone (muito provavelmente em função das portas abertas e fechadas que tenho à minha frente) e resolvi ligar o micro. Lembrei que era dia de São Pedro, coloquei tão somente a primeira ilustração e publiquei este post sem qualquer explicação.  Doze horas depois, abro o micro mais uma vez com o propósito de deletar esta entrada, quando estas reflexões e loucas referências bíblicas começaram a pipocar.

Que no dia de hoje possamos tomar posse de nossas chaves – se Pedro puder ajudar, ótimo.

O importante é reconhecer que  as chaves estão em nossas mãos, e não nas mãos do outro – um equívoco que repetimos muitas e muitas vezes. Que seja essa a nossa pedra angular e que, conscientes disso, possamos abrir e fechar as portas certas, ligar algumas conexões e desligar outras.

Se eu encerrasse aqui já estaria bom, mas me lembrei de um conto a respeito da exposição de um famoso artista que criou a sua própria interpretação do tradicional quadro em que Jesus bate na porta de uma casa  (Apocalipse 3:20), quando um convidado invejoso resolve chamar a sua atenção na frente de todo mundo apontando para a ausência de maçaneta na porta – um lapso que talvez diminuisse o brilho daquele momento.

O pintor, então, agradece a observação e a oportunidade de dizer que aquela porta era a porta do coração, e que, no que diz respeito à busca de uma expressão religiosa,  deveríamos ter em mente que a única forma de dar acesso à Luz é de dentro para fora, pois ninguém pode forçar a entrada do Divino em uma casa que não deseja, sinceramente, recebê-Lo.

Um bom dia de São Pedro para todos. ;)

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