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Paciência, por Shantideva

Shantideva foi um sábio indiano do século VII que se tornou muito respeitado no Tibet. Sua obra, Bodhicharyavatara (“O Caminho do Bodhisattva”), é um dos clássicos da literatura budista.

Conta a história que Shantideva foi inspirado pelo bodhisattva Manjushri – o que representa a sabedoria – quando as coisas realmente estavam ficando pretas para ele na academia monástica de Nalanda, onde era chamado de Bhusuku (“indolente”) por todos. A história é muito boa e pode ser lida aqui.

Eu tenho uma cópia d’O Caminho do Bodhisattva em inglês, comprada há muitos anos na Amazon. Hoje, passando por uma livraria, vi que já existe uma versão em português, editada pela Tharpa Brasil.

Resolvi pedir um conselho a Shantideva e abri o livro aleatoriamente. Era exatamente o início do capítulo 6, que fala sobre Paciência (Khanti). O texto é longo e não vou reproduzí-lo por completo. Pegarei as 10 primeiras estrofes, sendo que a primeira já me disse o que precisava assimilar como puxão de orelha. O restante, em uma tradução um pouco diferente, pode ser lido aqui.

O texto fala que devemos desenvolver a paciência para combater a raiva e isso pode gerar alguma confusão, pois, de modo geral, interpretamos raiva como uma reação agressiva, mas ela pode se fazer presente em atitudes mais contidas, como o ressentimento, a frustração, a amargura, a tristeza, o cinismo e a impaciência (estes dois, explícitos ou não).

Raiva, Desejo e Ignorância são considerados os Três Venenos da Mente, sendo que qualquer outro é uma derivação destes – fala-se de 84.000 venenos da mente, mas isso é só uma forma de dizer que é jeito tibetano de dizer “trocentos” ou “mais do que seria possível contar”.

  1. Um momento de raiva pode destruir
    Todas as ações saudáveis.
    Como venerar os Buddhas, a generosidade,
    O que foi acumulado por mais de mil aeons:
    Tudo pode ser destruído por um momento de raiva.
    .
  2. Não existe pior mal do que a raiva,
    E nenhuma fortaleza como a paciência.
    Assim eu deveria me esforçar de vários modos
    Em meditar na paciência.
    .
  3. Minha mente não estará em paz
    Se nutre dolorosos pensamentos de raiva.
    Não acharei nenhuma alegria ou felicidade;
    Incapaz dormir, me sentirei inseguro.
    .
  4. Um mestre que tem ódio
    Está em perigo de ser morto.
    Até mesmo por aqueles que dependem dele, da bondade dele.
    Por quem a riqueza e felicidade
    Dependa da bondade dele.
    .
  5. Por minha raiva, amigos e parentes ficam deprimidos;
    E apesar da minha generosidade não confiarão em mim;
    Em resumo: não há ninguém
    Que viva feliz com raiva.
    .
  6. Dessa forma este inimigo, a raiva,
    Cria sofrimentos,
    Mas quem diariamente supera isto
    Encontra felicidade de agora em diante.
    .
  7. Tendo achado seu combustível na infelicidade mental
    Por não conseguir aquilo que eu desejo
    E por fazer aquilo que não quero,
    A raiva aumenta e me destrói.
    .
  8. Então eu totalmente deveria erradicar esse combustível inimigo;
    Pois este inimigo não tem nenhuma outra função
    Que o de me causar dano.
    .
  9. Tudo que me acontecer
    Não deve perturbar minha alegria mental;
    Pois ficando infeliz não realizarei o que desejo
    E minhas virtudes diminuirão.
    .
  10. Não adianta ficar infeliz se algo não tem cura.
    Não precisa ficar infeliz se algo tem cura.