“Vê se me erra!”
Posted by Marcelo BuenoApr 13

Título alternativo: Pessach – reflexões sobre escravidão e liberdade.
No noite do próximo dia 19, Lua Cheia do mês judaico de Nissan, celebra-se Pessach – o êxodo dos hebreus do Egito, depois de 400 anos de escravidão.
Exatamente um ano antes, Moshé foi surpreendido com a visão da sarça ardente e a voz de D’us a lhe dar um propósito: ir ao Egito e libertar os filhos de Israel das mãos do Faraó.
Os mais românticos podem imaginar a cena e ver Moshé respondendo: “Ok, já é, estou indo agora!”, mas isso é está longe de ser verdade – em muitos sentidos, inclusive.. rs
D’us – contam os midrashim - argumentou com Moshé durante 7 dias até “convencê-lo” do que ele deveria fazer. Na verdade, ao longo destes dias, D’us não fez outra coisa a não ser remover os véus que impediam Moshé de ver a sua verdadeira natureza e propósito naquela existência. E aí surge o gancho para repetir a frase do rabino Marc Gafni que aparece em todos os meus blogs:
A vida é para nós como foi para Moshé: uma aventura na qual respondemos ao chamado – ou nada. Viver significa ser chamado – e responder. (…) o chamado não é um emprego ou uma ocupação – ele é uma vocação. Ele não é o que você faz para viver – ele é a sua vida. Precisamos sentir a voz de quem chama, encontrar em seguida a nossa própria voz e depois compreender que ambas são a mesma. Quando encontramos nossa qualidade única radical – nossa voz – encontramos D’us
– Marc Gafni, em As Marcas da Alma.
Comemora-se Pessach não para enaltecer um evento que ocorreu 1313 anos antes da Era Comum, mas porque é importante sermos lembrados, todos os anos, que trazemos um Egito dentro de nós e que em algum ponto também existe uma Terra Prometida “que emana leite e mel”. Quando optamos pela liberdade – o que Osho define no título de um livro como “a coragem de ser você mesmo” – deixamos para trás a escravidão e temos a oportunidade de vivermos a nossa própria verdade, felizes com o valor que atribuímos ao que somos e o que temos ao invés de infelizes pelo valor que atribuímos ao que não temos e o que gostaríamos de ser.
Ontem eu estava fuçando algumas indicações do WordPress e esbarrei com um texto da Sarah Sheeva que também fala de liberdade e começa definindo o que é prisão – nada mais sensato. Do dicionário ela trouxe que prisão também é “aquilo que cativa o espírito ou o coração”, concluindo que “prisão é quando não conseguimos parar de fazer algo, mesmo sabendo que aquilo nos faz mal”.
Entendendo Pessach
Vivemos uma época de alguma miopia histórica e muito oportunismo religioso (ou pseudo-religioso). Estamos em um ciclo lunar que fala de liberdade em um momentos que muitos se sentem oprimidos por diferentes motivos. 1 + 1 = 2! Celebre Pessach, faça suas conexões com muita fé e rompa com todos os grilhões da sua vida! Pessach é “passar por cima”, logo, esta é uma oportunidade única de se passar por cima de seus problemas!
Você já leu ou ouviu alguma coisa assim? Eu já. Muitas vezes.
De fato, Pessach significa “passar por cima” em hebraico, por isso a festividade se chama Passover entre os de língua inglesa. Os hebreus, contudo, não passam por cima de nada. Até passam ATRAVÉS do Mar Vermelho, o que é fantástico, mas não SOBRE ele, como fez Jesus, em algum momento, no Mar da Galiléia – o que não tem nada a ver com esta história, foi apenas uma lembrança.

Encontramos em Êxodo (livro que os judeus chamam de Shemot - “Nomes”) o relato de que os hebreus foram orientados a sacrificar um carneiro, pegar o seu sangue e tingir o batente da porta de suas casas. À meia-noite, o Anjo da Morte esteve no Egito, passou POR CIMA das casas marcadas e entrou nas que não estavam, levando o primogênito de cada família – a 10a praga. Volto ao assunto daqui a pouco…
A gente quer mudar a vida, mas é muito resistente em mudar a si próprio. Rola preguiça e medo. Nos deixamos dominar por uma vaidade tola que não quer abrir mão de nada – não quer abrir mão, inclusive, do que não se tem. Estamos vivendo a história errada e não nos tocamos disso. Essa é a nossa escravidão e o nosso exílio – não é à toa que os caras saem do Egito e depois ficam rodando por 40 anos no deserto: a gente finge que muda para algum tipo de gratificação imediata, mas não muda de verdade e cai na mesma armadilha.
Na minha cabeça, não há como falar de Pessach sem falar do que aconteceu 1 ano antes: a primeira coisa que Moshé ouve após o seu nome é uma ordem para que retire o seu calçado, pois o solo em que pisa é sagrado. Estudiosos da Torá nos ensinam que a palavra hebraica para calçado, na’al, também significa “fechado” ou “trancado”, ou seja, ele precisar sair dele mesmo, do seu personagem, de seus condicionamentos, de seus medos e mágoas – de sua prisão – para poder receber o chamado. Também é de Marc Gafni o comentário de que todos os tênis de uma determinada marca deixam a mesma impressão na terra, mas a marca deixada pelos nossos pés é única. Moshé tinha que ser Moshé e ninguém mais.
Michelangelo dizia que era fácil esculpir, pois ele reconhecia o que existia dentro de cada bloco de pedra. Bastava retirar tudo o que não tinha a ver com a imagem. Da mesma forma, tirar o calçado aqui é se despir de tudo o que não somos. {imagem: Nicolas Conver Tarot}
Pensamentos, sentimentos, palavras e ações: eles definem o que somos, definem as nossas bênçãos e as nossas maldições. Quando nos tornamos conscientes que não somos escravizados, mas nos deixamos escravizar, começamos a promover mudanças importantes.
Áries, o signo do carneiro, fala de independência, de individualidade, da nova vida e da busca da Luz. É o arquétipo do guerreiro e o despertar de forças que se renovam ou que até então desconhecíamos. É a capacidade de avançar presente em cada um de nós, o vigor, a iniciativa, a nossa capacidade de rápida recuperação depois de qualquer queda, pois o que importa não é cair, mas se levantar, sempre.
Não é por acaso que Pessach acontece na Lua Cheia de Áries, assim como não foi por acaso que na mesma ocasião, em anos diferentes, obviamente, D’us firma seu pacto com Avraham (Gênesis 15:13-18), os três anjos visitaram Avraham (Gênesis 18:1-22), Yitschak nasceu (Gênesis 21:1-6), Yaacov luta contra o anjo (Gênesis 32:25-29), Moshé recebe o chamado (Êxodo 1:1-6:1), a rainha Vashti é executada por se recusar dançar nua para os convidados do Rei Achashverosh (Esther 1:9-22) e Daniel é retirado com vida da cova dos Leões (Daniel 6:5-29).
Alguém acompanha o meu devaneio ou estou escrevendo sozinho? rs
Na Lua Cheia de Áries estas energias estão no seu ponto mais elevado. É com esta força que contamos para romper com tudo aquilo que nos prejudica, independente do que as outras pessoas consideram bom ou ruim para elas ou para nós, mas isso não significa passar por cima dos problemas. Antes disso – e mais importante – significa deixar de ser alvo do Anjo da Morte, daí o título pouco ortodoxo deste post. Em Pessach não nos conectamos com a liberdade, mas nos desconectamos das prisões. Parece a mesma coisa, mas não é.
O Anjo da Morte representa todos os aspectos de falência em nossas vidas e só deixamos de atraí-los se alteramos a nossa freqüência energética através dos pensamentos, sentimentos, palavras e ações corretas. Ele leva o que para nós é mais precioso, como levou os primogênitos do Egito. Pegando a essência do texto da Sarah, é preciso dizer “não” para tudo o que nos faz mal e, para que isso ocorra, faz-se necessário “tirar os sapatos” para se perceber corretamente os elos que precisam ser cortados, pois existem as coisas óbvias e as sutis.
Eu chamo de óbvio a consciência de limitações de ordem prática ou a infelicidade por se encontrar em uma determinada situação, mas às vezes achamos que está tudo bem trabalhar demais, ficar por um tempo demasiadamente longo na frente de um computador, na frente de uma televisão ou com a cara enfiada em um livro. A religião/religiosidade pode ser outra fuga se vira objeto de barganha, e aí você troca uma prisão por outra achando que está livre, mas não está. A lista é longa…
Pior que isso é muitas vezes interpretamos, equivocadamente, algo que nos faz bem como algo que nos faz mal, fruto da idéia que “bem = prazer” e “mal = desprazer”. Lembre-se da definição do dicionário e reflita que algumas prisões podem ser muito sedutoras.
Existe uma oração budista que pede a eliminação dos obstáculos externos, internos e secretos – acho esta divisão muito significativa. Que possamos, ao longo desta semana, meditar sobre nossas prisões e como sair delas, não como se estivéssemos traçando um plano de fuga (isso aqui não é Prison Break), mas como um resgate da nossa verdade, do nosso compromisso com esta existência e, conseqüentemente, da nossa verdadeira liberdade.
















