O Segredo do Segredo
Desde tempos imemoriais o ser humano acredita na existência de algum segredo ou alguma lei universal que lhe permita desfrutar de riquezas, poderes, sabedoria e sucesso; poderes que lhe garantam suas vontades; sabedoria que mantenha a sua supremacia; e sucesso que estabeleça ao mundo quão especial se é. Em outras palavras, um segredo que explique certas trjetórias vencedoras e outras perdedoras.
Tivemos então a disseminação de uma multiplicidade de teorias, com os mais variados temperos, apregoando acesso a esses desejos milenares da consciência humana. No entanto, mesmo supondo-se que não haja qualquer malícia, o segredo se torna o vírus derradeiro. É tudo o que você precisa para nunca mais ter acesso ao verdadeiro segredo, o sagrado – o segredo do segredo (grifo Zephyrus).
O grande problema de qualquer sistema de pensamento ou consciência são as lógicas dissimuladas de interesses outros que se fazem passar por interesses do próprio indivíduo. Assim agem os vírus em nosso organismo. Como seu material genético com interesses particulares se fazem passar pelo próprio corpo do indivíduo infectado, driblando todas as proteções celulares mais básicas.
Ao permitir que o vírus freqüente o sistema mais privado de um organismo se lhe é dado acesso ao código que defende a identidade e a integridade de um ser. Assim também são os vírus de computador que inteligentemente se combinam às lógicas intrínsecas do sistema e o escravizam para que cumpra vontades que não do usuário, mas de um outro interventor que se impõe.
Para a consciência humana nada é mais perigoso que a mensagem subliminar, ou seja, sentidos que encontram brechas em nossos pensamentos e se combinam com nosso discernimento, mascarando a realidade e cegando noso juízo. Esse vírus é o “segredo”, é o que se camufla de nós mesmos e impede que tenhamos um verdadeiro acesso ao bem-estar.
O segredo não é a chave para resolver problemas. É, na verdade, a fonte dos problemas e a causa das maiores distorções que fazemos ao tentar entender a vida e a realidade a nossa volta.
Temos que descobrir que há um segredo para estes “segredos” e o que há de mais oculto é o que eles tentam ocultar. Em algumas culturas místicas este vírus é chamado de “eu”, na psicologia de “Ego” e na religião de “Satã”. É comum que o neófito, o calouro na arte do oculto, conheça o segredo e este se transforme na maior de todas as armadilhas. Se não conhecer o segredo do segredo, permanecerá por longo tempo iludido, seguro de ter encontrado algo, quando apronfundou seu engano; confiante de ter iluminado algo, que de fato tornou-se mais obscuro.
Conta-se a história de um querido mestre que veio a falecer. Os incultos se puseram a chorar copiosamente pela perda do estimado líder. Já os neófitos que tiveram acesso à tradição (ao segredo) não choravam. De acordo com a tradição budista o mestre estava em um lugar de luz, prestes a dar continuidade a suas encarnações. Então, por que chorar?
Já os verdadeiros sábios, os mestres mais experientes, estes choravam pelo falecimento do líder. Faziam isso porque apesar de conhecerem o segredo da tradição, dispunham do segredo do segredo. Há uma tristeza legítima na passagem de um companheiro querido. O choro se fazia acompanhado do conhecimento de que não se tratava de um término total. Não reconhecer que estavam diante de um fim seria uma ilusão. O segredo é que ele não morreu; o segredo do segredo é que ele morreu, sim, mas não como as pessoas entendem a morte.
A tristeza do inculto e a tristeza dos sábios não são a mesma, porém o lugar do inculto é mais verdadeiro do que o lugar dos neófitos que negam a morte. Ou seja, o conhecimento parcial nos afasta mais da realidade do que a própria ignorância. E entender algo pela metade implica a produção de vírus dos quais dificilmente nos livramos porque atuam como parasitas fusionados em nossa compreensão.
É justamente o segredo que nos infecta. Sem um antivírus, um “programa” que possa escanear e verificar as áreas infectadas de nossa percepção e consciência, nos tornamos um veículo de engano para nós e para tudo a nossa volta.
~ Extraído do livro O Sagrado, do Rabino Nilton Bonder. Um outro post sobre este livro, acompanhado de link para uma entrevista em vídeo, pode ser acessado aqui.
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http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno
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