Zephyrus Tarot

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História para uma lamparina…

Meu interesse pelo Budismo é antigo. Acabei de fazer umas contas e, com certeza, no começo de 1995 eu praticava a sadhana da Tara Verde sozinho e sem qualquer orientação, ainda que a compra dos primeiros livros seja, talvez, bem anterior a isso. Lembrei deste detalhe porque aconteceu durante dois meses de cão que morei em São Paulo – nada contra a cidade, que eu adoro, mas as condições em que estava empregado não eram as mais adequadas.

Quando retornei ao Rio estava determinado a encontrar um centro budista para fazer parte. De maior credibilidade, só ouvia falar da KTC, localizada no “fim do mundo”, em Vargem Grande. Pesquisando daqui e ali, soube que um grande lama tibetano estaria de passagem na cidade para dar iniciação à Tara Vermelha em uma casa na Gávea. E lá fui eu.

Nesta ocasião conheci o Chagdud Tulku Rinpoche – lamentavelmente não sei a data em que tomei refúgio e recebi esta iniciação.

Nunca tinha ouvido falar da Tara Vermelha e confesso até que o fato de ser vermelha me deixava meio com o pé atrás, mas fiquei bastante impressionado com a presença do mestre e deixei que as coisas acontecessem naturalmente. Depois disso, li Os Portões da Prática Budista, de sua autoria, e, por algum tempo, freqüentei as reuniões semanais da sadhana da Tara Vermelha, em Botafogo.

Não fiquei muito tempo no grupo. Tinha sérios problemas com grupos, pois continuava pensando nas necessidades do dia-a-dia enquanto as pessoas queriam largar tudo para viver aos pés do mestre no Tibet ou, no caso, em Três Coroas (RS). Tendo abandonado as práticas, guardava apenas um enorme carinho com relação ao Rinpoche.

No dia 27 de dezembro de 1998 acordei com minha mãe ao telefone. Meu irmão havia sofrido um acidente na estrada e meu pai pedia para que eu os levasse até o posto da Polícia Rodoviária, onde receberíamos outras orientações. Ele já havia passado por outros acidentes, deu perda total em 2 carros da família e, desta vez, apenas acompanhava um amigo para passar o fim de ano em uma casa de praia.

Do nada, no meio do caminho, o mantra da Tara Vermelha começou a ser entoado na minha cabeça. Não o mantra simples, Om Tare Tam Soha, mais o que chamamos de Jetsun Prayer, que é bem mais complicado e que há muito tempo não recitava. Se estivesse conversando com alguém que me pedisse para repetir o Jetsun, talvez tivesse dúvidas em como fazê-lo corretamente, mas a oração tibetana simplesmente fluia. Aquilo não me pareceu um bom sinal: a Tara Vermelha, entre outras coisas, é a guardiã dos portões do bardo - uma área de transição entre vida, morte e renascimento. Há muito tempo não pensava em nada associado ao Budismo e tudo, naquele momento, parecia muito estranho. Poderia ser apenas ansiedade e medo… mas não era.

Acho que só mesmo as muitas invocações à Tara me ajudaram a cuidar da parte prática da coisa, além de assegurar o bem estar dos meus pais. Estava grato por, independente de qualquer outra coisa, Ela ter vindo em meu socorro quando eu sequer sabia estar entrando numa situação em que precisaria de ajuda. A gente passa pelo que tem que passar. O Universo ajuda para que a experiência ocorra da forma mais adequada.

Os anos se passaram. Quando recebi a notícia de falecimento do Chagdud, em 17 de novembro de 2002, fazia parte de outro caminho. O gonpa escreveu para todas as pessoas cadastradas no mailing eletrônico para que fizesse doações para a compra de lamparinas que deveriam ficar acesas por um determinado número de dias. Fiquei na dúvida se participava ou não, fui aconselhado a não fazer e, por fim, não fiz mesmo.

Agora que escrevi isso que me toquei que foi aniversário da morte dele há exatos 10 dias. Nestes últimos 5 anos, volta-e-meia me lembro de não ter feito esta homenagem e isso me incomoda. Incomoda muito. Fiz minhas orações na época, mas nada substituiu uma culpa infantil de não ter feito o que eu achava que era certo fazer.

No ano passado uma pessoa muito próxima a mim se juntou – também por um tempo – ao núcleo carioca do Chagdud Gonpa, o Ped Gyal Ling. Cheguei a comparecer a uma única reunião apenas para dar uma força, mas não me senti levado a regressar. Assistia à palestra de Chagdud Khadro, esposa do Chagdud Tulku, sem sentir qualquer afinidade com ela ou com o trabalho do grupo.

Depois de muitos anos afastado do Budismo, tomei refúgio mais uma vez em outubro passado, junto com a iniciação a Tchenrezi. No domingo, recebi – com mais de 10 anos de atraso – iniciação à Tara Verde. A caminho do gonpa – aquele mesmo de Vargem Grande, que parecia ficar no fim do mundo – lembrei ter sonhado com Chagdud durante a semana, o que nunca tinha acontecido. Não me recordo o que se passou neste sonho – até porque dificilmente lembro de sonhos – mas até achei que fosse por causa da expectativa desta iniciação (confesso que, agora, não sei).

Ontem de manhã fui procurar uma descrição das 21 faces de Tara para complementar a minha resposta para a B e descobri o Dakini Lounge. Sua autora, Pema Tzewang, disponibilizou o conteúdo do CD Prática e Comentários sobre Tara Vermelha para se ouvir online e a primeira coisa que saltou aos olhos foi a linha com a prece Jetsun. Coloquei para toca e fiz uma imensa viagem. Fui tomado por dores que imaginei não (mais) existir. Passei o dia pensando nisso.

Acabei de consultar o site e vi que foram acesas mais de 3 mil lamparinas para o mestre, no último dia 17. Faço a minha homenagem à S.Ema. Chagdud Tulku Rinpoche deixando aqui uma lamparina permanentemente acesa. Obrigado, obrigado, obrigado.

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Ó, ilustre Tara, por favor, tenha consciência de mim.
Remova meus obstáculos e rapidamente conceda
minhas excelentes aspirações.

- tradução da prece Jetsun -

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  • http://www.incompletudes.wordpress.com/ K.

    Díficil apagar as dores… mas tem algumas que sempre deixam um legado (às vezes bom, outras vezes ruim)… mas, sempre deixam algo.

    beijooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

  • http://www.incompletudes.wordpress.com K.

    Díficil apagar as dores… mas tem algumas que sempre deixam um legado (às vezes bom, outras vezes ruim)… mas, sempre deixam algo.

    beijooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo

  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    O segredo é não tentar apagá-las, mas simplesmente deixá-las partir…

    Quanto mais a gente insiste em manter a porta fechada, mais dói, quer você tenha trancado a dor dentro para não sair, quer você a tenha trancado do lado de fora para que ela não pudesse entrar.

    Abra a porta e observe. Abra a porta e deixe a dor passar… Estou fazendo isso por aqui… ;)

    bjo bjo bjo

  • http://www.zephyrusprana.wordpress.com Marcelo Bueno

    O segredo é não tentar apagá-las, mas simplesmente deixá-las partir…

    Quanto mais a gente insiste em manter a porta fechada, mais dói, quer você tenha trancado a dor dentro para não sair, quer você a tenha trancado do lado de fora para que ela não pudesse entrar.

    Abra a porta e observe. Abra a porta e deixe a dor passar… Estou fazendo isso por aqui… ;)

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