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Tarot.. hã… Cabalístico?

Estou há um tempão tentando escrever este post… Eu olho para ele, ele olha para mim, troco uma palavra, movo uma vírgula, acrescento um parágrafo, mas nada me deixa efetivamente satisfeito. {imagem: Tarot of the Sephiroth}

Isto ocorre, em parte, porque pensei em fazer algo mais abrangente e este não me parece o espaço adequado para isso – pelo menos, não em um único texto.

Pensando nisso, deixo aqui o que comecei a elaborar como crítica em relação ao pensamento de que o Tarot teria alguma origem na Cabalá – ou uma inquestionável ligação com ela. A Cabalá, como muitos devem saber, é um corpo de conhecimento de origem judaica que, de forma cíclica, “vira moda”. O problema é que, na qualidade de moda, nem sempre é fácil separar o sério do oportunista, até porque alguns oportunistas são bem convincentes.

Passo adiante um pouco do que filtrei a respeito do assunto somado à minha experiência pessoal. Críticas são bem vindas.

Eu não acredito em um “Tarot Cabalístico”. Os que já me ouviram falar dos Arcanos Menores podem estranhar esta afirmação, já que coloco as cartas dentro da Árvore da Vida, mas não creio que este recurso faça da minha leitura uma “leitura cabalistica”. Eu até explico como cheguei às definições que adoto, quando necessário, mas, via de regra, não vejo razão para rebuscar meu discurso com referências cabalísticas (ou pseudo-cabalísticas). Os que o fazem, de modo geral estão mais interessados em impressionar do que agregar valor.

Importante que fique claro que o que se conhece de Cabalá aplicada ao Tarot (ou Tarot aplicado à Cabalá, como preferir) não é uma Cabalá Judaica, mas uma Cabalá Hermética, que surgiu dentro do movimento renascentista do século XV com a intenção de inserir o misticismo judaico (na verdade, o pouco que se sabia dele) dentro de um caldeirão já repleto de outros conhecimentos, como astrologia, alquimia, magia, paganismo, goetia, …

É relativamente fácil dar uma roupagem cabalista ao Tarot, basta ter acesso a algumas informações. Gosto, principalmente, do jogo de palavras (o hebraico é rico neste recurso), mas será sempre uma abordagem que busca na filosofia judaica justificativas para elementos do Tarot – exercício que pode ser feito com qualquer outro corpo de conhecimento, desde que o Tarot não seja deturpado para se encaixar em alguma regra fora dele.

Tavaglione Tarot

A correlação entre letras hebraicas e Arcanos Maiores, por exemplo, não se sustenta aos olhos de um estudioso mediano. Palavras-chaves a respeito de cada letra foram disponibilizadas, mas não cobrem todos os pontos. {imagem: Tavaglione Tarot}

Dalet é a “porta”, mas também o “homem pobre” e a experiência da auto-anulação do ego. Em que isso se encaixa com a Imperatriz (escola inglesa) ou com o Imperador (escola francesa)? Waite chegou ao ponto de trocar a Justiça e a Força de posição para alinhá-las com seqüências das letras hebraicas e sua associação astrológica: Força – Tet – Leão, Justiça – Lamed – Libra. Crowley não trocou as cartas, mas “ouviu” de seu mentor espiritual que “Tsade não é a Estrela” e atribuiu Hei para o Arcano XVII, deixando a letra Tsade com o Imperador. Apesar disso, continuou associando o Imperador ao signo de Áries e a Estrela ao signo de Aquário…

Em todos estes anos de estudo, li Regardie, Crowley, Knight, Case, Fortune, Gray, Jayanti e Parfitt, entre outros, e eles nunca me levaram a entender exatamente qual o propósito da “Qabalah” – grafada assim já para estabelecer diferenças – pela Qabalah ou da Qabalah aplicada ao Tarot, até porque, em vários momentos, os conceitos tradicionais prevalecem independente de atributos externos ao Tarot.

O pai do “Tarot Cabalístico” foi Antoine Court de Gebelin, embora os trabalhos de Eliphas Levi sejam mais conhecidos. É de se compreender o seu entusiasmo: o alfabeto hebraico possui 22 letras (o mesmo número de Arcanos Maiores), a Árvore da Vida tem 10 sefirót (o mesmo número de Arcanos Menores numerados em cada naipe) e o Tetragrama (Nome mais elevado de D’us) é formado por 4 letras (o mesmo número de Figuras da Corte em cada naipe, por exemplo, sendo que o Tetragrama servirá para Levi e Papus em diversas outras questões).

Apesar disso, e repetindo Gershon Scholem:

As atividades dos ocultistas franceses e ingleses foram inúteis e serviram apenas para gerar uma grande confusão entre os ensinamento da Cabalá e suas próprias invenções, tais como a suposta origem cabalística do Tarot” — citação curiosamente extraída do livro Tarot Cabalístico, de Robert Wang.

Somada à trágica associação Arcano Maior – Letra Hebraica, ainda temos a questão dos caminhos na Árvore da Vida, que também é ponto de discórdia entre alguns autores, pois nem todos concordam que as letras se encontram nos mesmos lugares e, obviamente, isto faz toda a diferença quando você justifica a função de uma determinada letra/arcano como canal de comunicação entre duas sefirót.

Eu, em especial, prefiro trabalhar, inclusive, com o modelo de Árvore da Vida instituído por Yitzchak Luria, que estabelece um único caminho de Malchut (10), o Mundo Físico, aos planos superiores através de Yessod (9) e liga Biná (3) à Chessed (4) – assim como Chochmá (2) à Gevurá (5) – evitando o aparente “salto” do fluxo de energia que se desloca entre as sefirót superiores, como ocorre no outro modelo de Árvore, também usada por muitos judeus.

É fato que o diagrama conhecido como Etz Chaim pode ser considerado o principal símbolo da Cabalá. Tudo (ou quase tudo) pode ser explicado através dele, pois a Árvore da Vida é, antes de qualquer outra coisa, um mapa que revela como as Forças da Criação do Universo atuam – portanto, um mapa de nós mesmos.

No estudo dos Arcanos Menores, passei um bom tempo reproduzindo conceitos-chaves deste ou daquele autor até ter a oportunidade de me aprofundar no significado da Árvore e o seu fluxo. Não sou um especialista no assunto – ando até meio enferrujado – mas me sirvo dele com responsabilidade e respeito.

Os Menores, lidos como uma seqüência (e não como cartas isoladas), são mais ricos em informação, pois sabemos de onde viemos e para onde vamos, sem contar com a possibilidade de analisarmos, através da sefirá correspondente, as oportunidades e as armadilhas inerentes a cada lâmina.

Em posts futuros eu escrevo um pouco sobre cada sefirá e que tipo de relação elas estabelecem com as cartas numeradas e as figuras da corte.

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  • Raquel

    Muito bom este site! ótima qualidade e excelentes informações!

    Parabéns!

  • Raquel

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  • http://www.zephyrus.blog.br Marcelo Bueno

    Obrigado, Raquel, volte sempre!

    []‘s

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  • Riccardo_pereira

    Oi Marcelo,

    Gostaria de parabenizá-lo por tão bem escrito texto, cuja finalidade é simples e de muita importância: possibilitar ao leitor o acesso a informação da NÃO EXISTÊNCIA do Tarô dito “cabalístico”.

    Ultimamente tenho esforçado-me muito em minha comunidade de Tarô do Orkut, e em tantas outras, assim como nos cursos de Tarô que venho ministrando em demonstrar e enfatizar sobre as muitas incoerências de conceitos construídos sobre o Tarô, as quais vieram à tona a partir do conhecimento pautado sobre assunto a partir de visões dos famosos ocultistas do século XIX.

    Muito pouco sei sobre a Cabalá, ou sobre o seu funcionamento na prática. Mas, desde os tempos longíquos que estudo o Tarô, que venho percebendo o seu certo distancimento desses inúmeros saberes que alguns insistem em associá-lo, alguns inclusive desejando, por meio de discurso sofista, torná-lo um produto desses outros.

    O desafio aqui é grande, mas penso qeu com uso do simples bom senso e conhecimento seguro do Tarô, conseguiremos pelo menos minimizar, por meio de nosso cuidadoso esclarecimento, o “mundo de absurdos” que ouvimos falar sobre o Tarô nos últimos tempos.

    Um abraço, meus parabéns mais uma vez pelo belo e substancial artigo, e ratifico-lhe que aprecio muito o seu trabalho!

    Ricardo Pereira
    Tarólogo
    Blog Substractum Tarot
    Orkut: Tarô: Símbolos & Análises
    E-mail: riccardo_pereira@yahoo.com.br