Pontos-de-Vista II

O último post rendeu, mas rendeu por um caminho estranho, pois, de uma hora para outra, parecia que eu estava defendendo algo estúpido, como “o Tarot não precisa de imagens, apenas números e conceitos abstratos”. {imagem: Sacred Rose Tarot}
O problema nunca esteve na imagem, mas na imagem errada – ou na interpretação errada da imagem certa. Tento colocar as coisas dentro das suas devidas perspectivas no texto a seguir:
Zoe, quando você trouxe uma troca que rolava no MSN para uma arena pública, desconsiderou algumas coisas que conversamos e generalizou, equivocadamente, a minha opinião a respeito do Tarot, o que me obriga a dar algumas explicações para quem pega este bonde andando. Não me importo que as pessoas tenham uma opinião diferente da minha, contanto que elas contestem o que eu realmente penso a respeito de qualquer assunto.
Continuo dizendo que se a forma como você interpreta o Tarot dá certo, be happy. Afinal, o oráculo atende às nossas convenções e o que você faz está inserido dentro de um sistema que você desenvolveu ao longo destes anos. Ele funciona. Não discuto isso. Só que eu não falo de uma abordagem individual. Não se trata de como o Marcelo joga ou como a Zoe joga. Estamos discutindo a respeito de uma estrutura simbólica, supostamente, universal. É preciso ter em mente que uma linguagem viva pode (e deve) ser atualizada, mas não temos o direito de adulterá-la – o que é uma outra história.
A origem do Tarot é desconhecida. De onde surgiram as imagens? Se ele foi criado para ser um “livro de conhecimentos”, estes ensinamentos estão codificados nas imagens. Nós olhamos para cada elemento e tentamos entender o que eles querem dizer. Cada detalhe é importante: se é homem ou mulher, se o personagem olha para a direita ou para a esquerda, onde a mão está, e por aí vai… Em momento algum condeno a imagem pela imagem.
É justamente por saber do valor das imagens que me preocupo com o uso que se faz delas. Não se esqueça que sou publicitário: se fizesse pouco da imagem seria bancário ou seguiria na carreira tão somente compondo anúncios de linha na seção dos classificados. Não é o caso.
Discutimos bastante, por exemplo, sobre a lâmina dos Enamorados. Destaquei para você que a mulher da esquerda toca o ombro do rapaz e que ombro, em hebraico, é shekem – também traduzido como “a porção que carrega o fardo” – o que lhe vende alguma culpa do tipo “pense bem no que está fazendo”. Também lhe disse que uma diferença entre o 6 e o 15 é que o primeiro se importa com as pessoas, e que isso é visto pelo fato do rapaz estar no mesmo plano que as duas mulheres enquanto o Diabo se posiciona acima de seus escravos.
Nunca li nada disso em livros. Apenas vi as imagens e coloquei para você o que pensava sem fugir, em momento algum, dos conceitos que permeiam estes dois arcanos. É relativamente fácil ser criativo com uma namorada por semana (e se não for, talvez ninguém venha a saber). O difícil é ser criativo casado com a mesma mulher por 3, 10 ou 30 anos. As pessoas desistem fácil. Ainda há muito o que se explorar nas boas e velhas imagens do século XV. Não preciso colocar Yoda de Eremita, Aarrba The Hunt de Pendurado, Darth Vader de Diabo e a Estrela da Morte (explodindo, naturalmente) de Torre para parecer moderno.
Pegue a Imperatriz de três baralhos diferentes: uma está grávida, a outra segura um bebê no colo e a terceira tem uma criança andando aos seus pés (estou resgatando fragmentos de conversas nossas para uniformizar o debate, agora, coletivo). Se formos interpretar tão somente as imagens, temos três situações completamente diferentes, sendo que apenas a primeira estará coerente com a idéia de que, no Arcano III, o fruto ainda não está à disposição.
Não condeno “Os Amantes” do Waite de todo, por exemplo. As duas figuras têm a Árvore da Vida e a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal às suas costas. Extraídos do contexto bíblico, a cena conserva questões como o livre-arbítrio. Se faço uso do meu conhecimento da Torá, ainda vou além, mas deixo para falar disso no meu próprio espaço.
O fato é que artistas, ainda que talentosos, mas ignorantes com relação à linguagem do Tarot, viram tão somente um casal nu e tudo virou mera fornicação. Até o anjo sumiu, provavelmente com vergonha. E aí não importa se a alma do seu aluno se identifica com isso ou com aquilo: ele estará trabalhando sobre um conceito errado porque assim a imagem sugere.
Com relação aos Arcanos Menores, o Rider-Waite foi fortemente influenciado pela cartomancia – e não por princípios herméticos da Golden Dawn ou de qualquer outra Ordem, como imaginam alguns. Não existe qualquer proposta iniciática, por exemplo, como fez o Mebes. O que Pamela fez foi transformar estas informações (= conceitos) em imagens, meio que “defendendo um território” – a sua visão das lâminas. Se continuasse com 3 trevos ou 8 corações, estaria sujeita às diferentes escolas de cartomancia existentes. A imagem, teoricamente, obrigaria o leitor a seguir uma direção específica.
Não discuto se os conceitos do Waite com relação aos Menores estão certos ou errados. E em momento algum levanto a bandeira de um “Tarot Verdadeiro”. Por outro lado, condeno veementemente o “Tarot da Mãe Joana”.
Tomemos o 7 de Ouros como exemplo: no Rider-Waite é uma carta de “dinheiro e negócios”. Deveríamos respeitar isso ao fazermos uso do baralho. Poderíamos dizer qualquer coisa, fazer qualquer viagem, enquanto as idéias girassem em torno de “dinheiro e negócios”. Na descrição da lâmina, ainda encontramos que “poder-se-ia dizer que aquelas folhagens são tesouros e que o coração do jovem lá se encontra”. Rachel Pollack diz, entre outras coisas, que “o trabalho dá mais do que lucro material; a pessoa também cresce”. Muito coerente.
Acontece que algumas pessoas olham para a imagem desenhada pela Pamela (a mesma que fala de satisfação pelo trabalho realizado) e não acham que o rapaz esteja tão feliz. Pelo contrário, que se apoia desanimado sobre a enxada e que os 7 pentáculos estão longe de ser aquilo que ele imaginou. “Trabalhei tanto só para isso?”, sugerem.
A liberdade de reinterpretar a imagem sem o conhecimento da sua origem promove isso. E se eu achar que o 4 de Copas é sinal de bebedeira e que o cara está tão doido que depois de ter bebido 3 taças ainda vê uma quarta voando em sua direção? Eu sequer estou falando de um baralho esquisito, onde o erro está na raiz. As pessoas pegam um trabalho que é referência para milhares e o recriam na medida em que projetam o que desejam, o que difere de você ter três pessoas reunidas, cada uma defendendo o ponto-de-vista de uma escola (= uniformidade de pensamento).
Com relação ao método que particularmente adoto, não estou defendendo nenhuma tradição. Deveria terminar de escrever o artigo “Eu não acredito em Tarot Cabalístico”, hoje, se não parasse para explicar o que não disse. Qualquer um minimamente conhecedor da Tradição Judaica sabe que qualquer coisa que “o Tarot veio da Cabalá” é uma imensa bobagem. O que faço é pegar emprestado um sistema que me parece bastante convincente quando tem por base seus princípios originais.
Sim, tenho uma “proposta estrutural e básica de entendimento dos menores”, mas ela está longe de ser uma gaiola. Não estou ditando regras como se estas “regras” fossem desprovidas de um propósito. Jogue uma maçã para cima e, sinto muito, ela irá cair – é a lei da gravidade. Regras existem, o que não significa que elas precisem ser burras. O Tarot não funciona sem a compreensão das forças presentes em cada lâmina.
Uma das minhas maiores resistências ao esquematizar o workshop foi adotar palavras-chaves. Eu não gosto delas. Você explica várias coisas e o aluno, por vezes, fica limitado a 3 ou 4 sílabas reunidas. As palavras-chaves deveriam servir apenas para ajudar na memorização de algo muito maior do que elas, mas poucos querem dar profundidade aos seus estudos pois “leva tempo” ou “dá trabalho”. “Para que usar 78 cartas se com 22 tiro um caldo?” O “viajar nas imagens” ajuda muito nisso – What you see is what you get.
Não existe uma “escola de pintas” que se opõe a uma “escola de imagens”. Quando se trata dos Menores, existem tão somente conceitos. Se estes conceitos virão traduzidos com ícones simples, gráficos psicodéllicos ou cenas ricas em elementos simbólicos, tanto faz. Eu pego qualquer baralho e parto dos mesmos princípios, o que não significa que eu fale as mesmas coisas, pois cada momento é um momento e há outros fatores que permeiam qualquer leitura.









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